CAPTULO 9

Evocao

Ah. Psicologia investiga trs assuntos principais no campo da memria: (1) aprendizagem e formao dos
traos que nos permitiro mais tarde evocar; (2) o destino dsses traos no perodo situado entre a 
aprendizagem e a evocao, e (3) o processo da prpria evocao. Na verdade, a evocao desempenha um 
papel na investigao de todos stes problemas, porque o estudo das leis da aprendizagem e das da reteno 
abrange a evocao, tanto quanto o estudo da prpria evocao. Quando interessados, porm, nos problemas 
da aprendizagem, podemos manter condies constantes a respeito da reteno e da evocao, de maneira que 
apenas as condies da aprendizagem sejam variadas. Se nosso problema se refere  reteno, as condies da 
aprendizagem e da evocao sero mantidas constantes, ao passo que as concernentes ao intervalo entre a 
aprendizagem e a evocao, sero variadas. No estudo da evocao s haver variao das circunstncias 
concernentes a ste fenmeno. Assim, as trs classes de problemas podem ser, realmente, separadas. Neste 
captulo, trataremos principalmente das questes da reteno e da evocao, embora tambm examinemos 
certos fatos que dizem respeito  aprendizagem e  formao de traos. 
No Captulo 6, mencionei certas experincias nas quais, depois de 
aprender a escolher um membro de um par, por exemplo, o mais escuro 
de dois cinzentos, os animais tm de reagir diante de um outro par, que 
consistia no objeto certo do perodo de aprendizagem e de um nvo objeto. O nvo objeto tinha com o 
objeto certo a mesma relao que ste tivera com o objeto errado do par original, O resultado era que, na 
maioria das experincias, os animais escolhiam o nvo objeto, 
161 
evidentemente porque, no nvo par, ste objeto desempenhava o mesmo papel que o objeto certo desempenhava no 
perodo de aprendizagem. Com a mudana da situao, o nvo objeto passou a ser o componente mais escuro do par. 
ste resultado, contudo, no  inteiramente generalizado. Depende do tempo que passa entre as experincias com o antigo 
par e as primeiras experincias com o segundo. Certa vez, quando se completou a aprendizagem, apresentou-se a uma 
galinha o nvo par em experincias isoladas, entre as escolhas com o antigo par, e ste processo foi repetido, at que as 
experincias com o nvo par se mostraram estatisticamente fidedignas. Verificou-se que, nestas circunstncias, o animal 
escolhia o objeto certo do perodo de aprendizagem tantas vzes quanto o nvo objeto. ste fato pode ser explicado da 
seguinte maneira: quando a galinha reage aos objetos, stes aparecem como um par em que um cinzento  a parte escura e o 
outro a parte clara do par.1 Ao mesmo tempo, porm, um objeto ser visto como um cinzento escuro, mais ou menos 
especfico, e o outro como um cinzento claro, mais ou menos particular. Enquanto o par no  transferido, ambas as 
maneiras de ver os objetos so compatveis com a direo da aprenclizagem. Por um lado, se, durante o perodo de 
aprendizagem, a galinha reage ao objeto certo, em funo de seu papel no par, e tambm como um cinzento mais ou 
menos definido, o treinamento ter dois efeitos, que devem entrar em conflito logo que surge o nvo par. De fato, ento o 
primeiro produto da aprendizagem favorecer a escolha de um objeto e o segundo produto a escolha do outro. 
Supon}iamos, agora, que os dois efeitos da aprendizagem no sejam igualmente persistentes. Se isto acontece, um aumento 
do intervalo entre as experincias com o primeiro par e as experincias com o segundo favorecer as reaes que dependem 
do mais duradouro produto do treinamento. Deduz-se, assim, de nossa experincia que o hbito que depende do par como 
um todo  mais duradouro que o hbito que depende dos matizes do cinzento em si mesmos. O par como um todo  
relativamente menos decisivo apenas quando o animal reage ao nvo par, imediatamente depois das experincias com o 
primeiro par, isto , em uma ocasio em que os matizes individuais do cinzento ainda esto vivos na memria. Parece ser 
regra geral que a reteno que se refere  organizao de fatos  mais persistente que a reteno que se refere a fatos 
individuais em si mesmos. Vrios psiclogos tm observado que, muitas vzes, continuamos capazes de lembrar a estrutura 
geral das coisas, quando seu contedo mais particular j no  retido. Esta tese merece cuidadoso exame, porque o trabalho 
nessa direo nos pode ajudar a compreender a natureza psicolgica dos conceitos. No 
1 Aqui e sempre que falamos sbre animais, uso expresses tais como aparecer para simplificar as coisas. 
Tenha ou no tenha a galinha um campo visual no sentido humano dos vocbulos, tais expresses tm um sentido 
funcional claro, ue  o nico em que estamos aqui interessados. 
caso da galinha, foi fcil examinar nossa hiptese. Oferecemos ao animal mais experincias com o nvo par, 
quando se tinham passado vrios minutos depois das ltimas experincias com o primeiro par. O resultado foi 
a predominncia clara das reaes relativas. 
Muita coisa resta a ser feita neste campo. No como do Captulo 8, salientei que a comparao sucessiva 
oferece uma maneira pela qual o destino dos traos pode ser investigado. Acabamos de aprender uma outra 
maneira. Uma terceira, um tanto semelhante  segunda, tambm pode ser derivada de experincias com animais. 
Irei discuti-la como exemplo dos problemas especficos levantados pela Psicologia da Gestalt. Quando 
Yabrough2 investigou a reao retardada em gatos, verif icou que, se os animais tinham de escolher entre trs 
objetos, suas reaes j no eram dignas de confiana aps retardamentos de apenas quatro segundos. Com 
dois objetos, o retardamento podia ser aumentado para mais de quatro vzes ste tempo. Por que  o resultado 
to melhor no segundo caso? O exame de sujeitos humanos mediante um trabalho semelhante, embora mais 
difcil, dar-nos- uma explicao. Se 2.5 objetos com propriedades individualmente idnticas so distribu- dos 
diante do sujeito em semicrculo, nem todos les representam o mesmo papel na situao visual. Dois objetos, 
o primeiro ao lado direito e o primeiro ao lado esquerdo, tm localizao bem definidas e altamente especficas. 
De certo modo, o objeto colocado no meio tambm pode ser considerado como especificamente caracterizado, 
pelo menos no campo visual de um sujeito humano. Todos os demais objetos, porm, no correspondem a 
muito mais que o recheio indiferente do arco. Suponhamos, agora, que algum aponte para um dos objetos e 
que, depois de uma demora em que o sujeito no olhou fixamente para o objeto, ste sujeito seja convidado a 
indicar qual era o objeto. Enquanto um dsses objetos particulares fr usado na experincia, a reao do 
sujeito ser sempre correta. Se, porm, o objeto crtico est em uma posio indiferente e se no  permitido ao 
sujeito usar processos indiretos, como a contagem,  muito provvel que ocorram reaes errneas. Assim, o 
sujeito pode escolher o dcimo sexto, em lugar do dcimo stimo objeto, ou o oitavo em lugar do nono, e, se 
aumenta o retardamento, ou se o sujeito no est suficientemente atento, podem tornar-se freqentes erros 
ainda maiores. Isto mostra, mais uma vez, a dependncia da ao retardada com relao  posio mais ou 
menos especfica do item correto dentro de um grupo, como foi demonstrado por Hertz experimentando com 
aves, (c/. pg. 86). O mesmo princpio pode ser agora aplicado aos gatos que, depois de um retardamento, tm 
de escolher entre trs objetos. Se o indcio oferecido na apresentao inicial se refere ao objeto da esquerda, a 
tarefa dos animais diz respeito a um lugar altamente especfico no grupo. A especificidade desta localizao  
suceptvel de sobreviver na 
2 Jouru. of Animal Beliaviour, 7, 1917. 
163 
1c) 
memria. O mesmo  verdade se o objeto do lado direito  o crtico. No caso do objeto no meio, contudo, a 
localizao dentro do grupo pode tornar-se muito menos claramente caracterizada com relao aos gatos. 
Quando ste objeto  destacado na primeira apresentao, seu papel dentro do grupo pode ser 
suficientemente claro durante alguns momentos, mas logo seu trao se torna susceptvel de perder a 
individualidade e tornar-se parte do interior do grupo, agora indiferenciado. A conseqncia  que o animal 
reagir menos vzes corretamente, quando so usados na experincia trs objetos, em vez de dois. Apenas se 
o experimentador desse aos trs objetos outra distribuio no espao, de maneira que todos tivessem 
localizaes bem caracterizadas, poderiam, talvez, os gatos, resolver outra vez seu problema. Talvez sugira o 
leitor que, com trs objetos, a probabilidade de erros , ipso facto, aumentada e que, portanto, o 
comportamento dos gatos pode no ter relao com localizaes mais ou menos especficas dentro de 
determinado grupo. Essa objeo poderia fcilmente ser examinada introduzindo-se na situao, precisamente, 
as mudanas que acabei de mencionar. Do ponto de vista da organizao no se trata apenas de uma questo 
de nmeros, mas tambm de distribuio no espao. Assim, se os trs objetos forem distribudos de uma 
maneira em que cada um dles desempenhe uma parte especfica, descobriremos prontamente se  aceitvel 
uma explicao baseada em simples nmeros. Nas prprias experincias de Yarbrough, h um resultado que 
contradiz esta explicao puramente quantitativa. Se o simples nmero de objetos, em comparao com a falta 
de especificidade suficiente no caso de um objeto, fsse a condio que acarreta a falha com os trs objetos, 
as reaes errneas dos animais deveriam distribuir-se uniformemente entre os trs objetos. Na realidade, no 
 ste o caso. Depois de uma longa demora (superior a 4 segundos), alguns gatos jamais escolhem o objeto do 
meio. Tdas as suas reaes so dirigidas para o primeiro objeto  esquerda, ou o primeiro  direita. Isto  
justamente o que se poderia esperar, se nossa explicao fsse correta, ao passo que o fato no pode ser 
explicado sem referncia  organizao. Podemos concluir que, com os gatos, os traos dos acontecimentos 
passados sofrem uma transformao extraordinriamente rpida, em que as partes menos claramente 
especificadas dos grupos se deterioram. Quando isto acontece, o comportamento subseqente ser, 
evidentemente, determinado pela organizao simplificada que  deixada szinha. 
Observao semelhante foi feita por Tinklepaugh e por mim, quando, usando outro mtodo, realizamos 
algumas experincias de reao retardada com um macaco. Um espao quadrado muito grande do cho foi 
coberto de areia com algumas polegadas de altura. Diante dos olhos do animal foram feitos certos sinais na 
areia, como por exemplo, um pequeno montculo do mesmo material, ou, em outra experincia, uma linha reta, 
traada com o dedo na superfcie. Depois dstes preparativos, o alimento foi enterrado na areia em um lugar 
que, para um 
164 
sujeito humano, era claramente caracterizado como tendo uma posio especfica perto do sinal. Pretendamos 
verificar se o animal se utilizaria do sinal para se lembrar do lugar do alimento, pois, sem qualquer sinal na 
superfcie homognea, suas reaes anteriores diante do alimento enterrado no tinham sido muito claras. O 
macaco, que assistira aos nossos preparativos, s foi libertado depois que se passara algum tempo. Quando 
podia aproximar-se da areia, o macaco imediatamente dirigia-se ao prprio sinal e procurava encontrar ali o 
alimento. Jamais procurava nas vizinhanas do sinal. So altamente desejveis novas observaes, mas parece 
provvel uma explicao que no hesito em mencionar aqui. Justamente como no caso da reao retardada, 
investigada com gatos, a reao do macaco depende de um trao em que  representada a organizao do 
campo visual. Neste campo, o montculo ou a linha constituem aspectos importantes. Por outro lado, a 
localizao do ponto em que se acha o alimento oculto  apresentada de maneira muito menos especfica. 
Podemos, portanto, presumir que ocorre uma simplificao, que  anloga  observada nas experincias de 
Yarbrough. No macaco, o trao do campo tambm ser transformado durante o retardamento, e, nessa 
modificao, tdas as partes menos definidas estaro de nvo colocadas desvantajosamente. Como um trao, 
a situao ficar to obscurecida que s virtualmente  deixado o sinal destacado com uma vaga referncia ao 
alimento oculto. O mtodo que usamos com o macaco pode, naturalmente, ser aperfeioado. Pode tornar-se um 
instrumento eficiente para pesquisas do destino dos traos nos animais.3 
Assim, os traos no so, de modo algum, entidades rgidas, mas, ao contrrio, esto impregnados de 
tendncias dinmicas, e estas tendncias parecem ser mais fortes nos animais que no homem. Partindo-se 
dste ponto de vista, o estudo da reao retardada em animais  susceptvel de assumir grande significao 
para a Psicologia geral.  sempre aconselhvel investigar, antes de mais nada, as formas mais pronunciadas 
dos fenmenos. 
Em tais observaes, o comportamento que depende dos traos da memria  usado como indicador de 
mudanas sofridas por stes traos. H, contudo, outras situaes em que os traos so bem preservados, ao 
passo que, nas circunstncias em questo, a evocao , no obstante, difcil ou mesmo impossvel. Alguns 
exemplos dsse tipo foram mencionados no captulo anterior. Vamos, agora, tratar de outros que tambm 
mostram que a evocao depende de condies muito especificas. 
Se o trmo associao expressa o fato de que o trao de uma experincia unitria  le prprio um fato unitrio, 
deveramos deduzir que, uma 
3 Entrementes, Tiflklepaugh obteve considervel progresso nessa direo. Seu mtodo de lubstituio constitui uma excelente tcnica para 
estudar as caractersticas e o destino dos traos. (T!e Journ. o/ Camar. PychoL., 8, 1928). Cf. tafll bm W. Kb1er, Psyc?wZ. Forsch,., 1, 1921.) 
165 
vez formado tal fato unitrio, qualquer grupo de estmulos que corresponda a uma frao considervel da 
situao original causar a evocao de suas outras partes. Na realidade, isto no se d, porque, entre as 
caractersticas de uma experincia organizada e os estmulos correspondentes, no h, de modo algum, 
relaes ponto por ponto. O processo organizado depende de todo o conjunto dos estmulos e de suas 
caractersticas em relao, de uma maneira que no pode ser analisada nos efeitos independentes dos 
estmulos locais. Por ste motivo, uma frao do conjunto original de estmulos no estabelece um processo 
que tenha sido contido realmente no acontecimento original. Pelo contrrio, tal frao d origem a um processo 
que, em certos aspectos, difere da parte correspondente do fenmeno original. Em conseqncia, o processo 
agora oferecido pode no ter verso equivalente no trao unitrio daquele fenmeno, e pode, por ste motivo, 
ser incapaz de causar a evocao de suas outras partes. Assim, por exemplo, a Fig. 20 no  susceptvel de 
evocar as linhas que faltam na letra H, embora, geomtricamente, tal figura represente a maior parte de um H. 
Do mesmo modo, a Fig. 21 no provocar a evocao das linhas faltosas de um R. Vendo um H ou um R, no 
vimos, naturalmente, as figuras 20 ou 21 como verdadeiras formas visuais. Assim, os traos do H e do R no 
contm partes que correspondam s linhas apresentadas em nossas figuras e no ocorre a evocao. 
Devemos concluir que a evocao se restringe a casos em que o processo ora apresentado e uma parte do fato 
unitrio original so suficientemente semelhantes. Isso s se dar quando o presente processo corresponder a 
uma parte natural, ou a um sub-conjunto, da organizao original. Assim, as letras U. S. so susceptveis de 
causar a evocao de m A.4 e as estrlas de lembrar as outras partes da bandeira norte- americana. 
Em ambos os casos, a parte ora oferecida parece uma parte relativamente independente da experincia original. 
Evidentemente, a semelhana constitui a condio principal. Se traarmos um perfil do nariz para baixo, at o 
queixo, esta linha no corresponder a um completo 
4 Ser quase desnecessrio salientar que o autor se est referindo s iniciais de Uniteci States of America (Estados Unidos da Amrica). (N. do T.) 
166 
sub-conjunto do rosto. Apesar disso, como tal linha no parece muito diferente da mesma linha como parte de 
todo o perfil, o processo correspondente quela linha se assemelha  parte do processo em que se baseia o 
perfil como uma forma visual, e tambm os traos correspondentes. Neste caso,  muito provvel que ocorra a 
evocao. 
Falando-se de um modo geral, contudo, a evocao no ocorre to fcilmente quanto se presume nas atuais 
correntes empricas. Parece estar restrita a um canal bastante estreito, entre um Cila e um Carbdes. A 
associao  necessria  evocao e pressupe um suficiente grau de unificao no sentido de organizao. 
A evocao, por outro lado, s pode ocorrer se o processo, ora apresentado, se parecer com alguma regio 
dentro do trao organizado de tda a experincia. Assim, se uma parte da situao original est 
demasiadamente absorvida por uma organizao mais ampla, o estmulo que corresponde a esta parte ser 
incapaz de causar a evocao. Entre estas duas condies limitadoras, uma das quais  imposta pela natureza 
da associao e a outra pela da evocao, existe apenas uma estreita faixa em que a evocao pode realmente 
ocorrer. 
A fim de demonstrar ste fato, fiz a seguinte experincia: foram mostrados pares de figuras aos sujeitos. Depois 
de algum tempo, partes dsses desenhos foram apresentadas, com instrues para que fssem evocadas as 
partes faltosas. Em um caso como o da Fig. 22, por exempio, foi apresentada a linha vertical da esquerda ou a 
Fig. 23. Geomtricamente, a Fig. 23 representa uma parte muito maior do desenho original do que aquela 
simples linha vertical. No entanto, quando a linha vertical era apresentada, a evocao correta era muito mais 
freqente do que quando era mostrada a Fig. 23. Do ponto de vista da Psicologia da Gestait, isto nada tem de 
surpreendente. A Fig. 23 apresenta uma experincia visual que no ocorre como parte da Fig. 
22. Na Fig. 23, mesmo a primeira linha vertical da esquerda perdeu sua tendncia de evocar a Fig. 22, porque na 
Fig. 22 a linha vertical  isolada como algo  parte, ao passo que, na Fig. 23, constitui ela a extremidade 
esquerda de uma srie de paralelas. 
liste ltimo ponto introduz mais uma restrio a que esto sujeitas as possibilidades de evocao. Um 
agregado de estmulos pode tornar- 
167 
[1 
Fio. o 
Fio. ar 
1 
III 
FIG. 33 
FIG. 22 
se incapaz de causar a evocao, no smente quando separado de outros estmulos com que era 
originalmente combinado, mas tambm quando oferecido juntamente com estmulos que no estavam 
presentes por ocasio da apresentao original. Tambm esta condio pode levar a experincias a que no 
corresponde qualquer parte do trao em questo. Compreendemos imediatamente que, no smente tem 
importncia a organizao apresentada por ocasio da associao, como tambm a organizao apresentada 
por ocasio da (esperada) evocao. Quando apresentada de nvo em certo ambiente, um tipo de estmulos 
pode constituir excelente base para a evocao. O tipo, contudo, no se repetir muitas vzes, precisamente no 
ambiente em que ocorreu quando se formou a associao. Ora, sem contar os obstculos mais grosseiros que 
foram considerados acima, mesmo uma ligeira alterao do campo ambiente pode tornar determinado tipo 
incapaz de causar a evocao de itens associados, simplesmente porque a alterao introduz nova organizao 
em que as experincias correspondentes quele tipo j no se encontram presentes. Pode-se deduzir que isto  
verdade pela experincia de Nagel (cf. pg. 154). Em uma srie bem aprendida de slabas sem sentido, cada 
item, embora participando de tda a srie, parece ser uma coisa em si. Se, porm, tal slaba  apresentada 
szinha para relembrar a slaba seguinte, esta mudana de meio ambiente  muitas vzes suficiente para tornar 
impossvel a evocao. 
Esta mesma influncia da organizao sbre a evocao foi demonstrada de maneira surpreendente por 
Shepard e Fogelsonger.5 stes psiclogos fizeram seus sujeitos aprender pares de slabas alguns dos quais 
tendo os segundos membros idnticos. Entre a primeira ocorrncia de tal slaba e sua repetio em outro par, 
havia um intervalo de 25 minutos. Por ocasio do teste, era apresentada a primeira slaba de um par e sua 
companheira tinha de ser evocada, mas, quando duas slabas tinham sido acompanhadas, em ocasies 
diferentes, pela mesma segunda slaba, ambas eram apresentadas juntas no teste. Enqunto se puser de lado a 
organizao,  de esperar que, no ltimo caso, a companheira das duas sladas apresentadas seja mais 
fcilmente evocada do que a segunda que foi associada apenas com a primeira slaba, pois duas associaes 
que atuam na mesma direo reforam uma  outra, segundo se supe. Na realidade, contudo, o que se 
observava era justamente o contrrio, O fato de serem apresentadas duas slabas parecia inibir a evocao. A 
perturbao mostrara-se particularmente notvel, quando ambas as slabas eram apresentadas 
simultneamente, mas tambm se observava quando tais slabas eram oferecidas em rpida sucesso. A 
explicao parece estar no fato de que, durante a aprendizagem, tinha sido sempre apresentada aos sujeitos 
uma nica primeira slaba, juntamente com sua companheira e quando, nos casos crticos, duas slabas 
apareciam diante dles, stes objetos a princpio pareciam 
pouco familiares no nvo agrupamento e, como resultado, nenhuma delas podia evocar imediatamente a companheira de 
ambas. Esta explicao foi confirmada pela observao qualitativa. Os sujeitos informaram que a evocao s se tornava 
possvel por meio de uma atitude analtica ,na qual uma das duas slabas era suficientemente isolada. Deduz-se de nossa 
explicao que, qualquer slaba estranha, que jamais surgiu durante a aprendizagem, mas que  apresentada com um 
primeiro membro de um par aprendido, deve ter o mesmo efeito pertur.. bador. Os autores verificaram ser ste realmente o 
caso. Dste modo, a explicao parece plenamente comprovada. Nossa concluso  que, mesmo uma ligeira alterao de 
circunstncias, torna s vzes difcil a evocao. 
Resultado semelhante foi obtido por Frings6 em seu trabalho sbre as inibies, embora o problema, em seu caso, se 
referisse mais  aprendizagem que  evocao. Nas experincias clssicas, ficou demonstrado 
que, se uma slaba A se associou  slaba B, no se pode associar to fcilmente com uma terceira slaba C, como poderia 
uma slaba neutra. Tambm, quando A estve associado tanto com C como com B,  com lentido que provoca a evocao 
de B ou C. A competio das duas associaes tem efeito inibidor. Frings conseguiu mostrar que, em certas circunstncias, 
essas inibies desaparecem completamente. Seus sujeitos foram convidados a aprender sries de slabas, com a 
recomendao de que as slabas deveriam ser lidas e decoradas em grupos rtmicos anapsticos, nos quais, depois de duas 
slabas menos acentuadas, segue-se uma terceira com o acento forte. Em tais grupos, as primeiras duas slabas formam, 
naturalmente, um sub-conjunto. No teste, eram apresentadas as duas primeiras slabas, para que fsse evocada a slaba 
tnica, a terceira. Ora, se um grupo como (ac)d ocorre em uma primeira srie e um grupo (bc ) e em uma outra srie,  
de esperar uma inibio na associao entre c e e, porque c foi primeiro associado a d e agora est a e. Do mesmo modo, 
uma vez formadas as associaes (ac )d e (bc )e, apesar desta inibio, os sujeitos tero dificuldade em evocar d, 
quando so dados ac e e, quando so dados bc. Do ponto de vista da organizao, contudo, temos de compreender que 
em (ac)d, a slaba c,  um membro do sub-conjunto (ac), ao passo que em (bc ) e  membro de um sub-conjunto 
diferente (bc), e que, portanto, c no  exatamente a mesma coisa em ambos os casos. Tambm podemos dizer que, no 
primeiro caso, no foi c, mas sim o sub-conjunto (ac) que estve associado com d, e ainda que, no segundo caso, foi 
(bc) e no c que estve associado com e. Neste terreno, nem a aprendizagem nem a evocao sofrero inibio. As 
experincias confirmam ste ponto de vista. Quando uma slaba c ocorre em dois sub-conjuntos diferentes, no h inibio. 
 particularmente interessante, contudo, 
6 Arch. 1. d. ges. Psychol., 30, 1914. Essas exper1nc1as foram planejaclas por Bhler. 
5 Psychol. Rev., 20, 1913. 
169 
assinalar-se que as inibies ocorriam imediatamnte quando o sujeito estava fatigado por ocasio da aprendizagem e, 
portanto, incapaz de apreender as slabas nos complexos rtmicos prescritos. 
Mostramos que, devido aos fatos da organizao, as verificaes experimentais podem divergir considervelmente das que 
seriam de esperar pelas leis clssicas de associao e evocao. E, no entanto, ainda no vimos, at agora, a mais radical 
limitao quelas regras. Esta nova questo, contudo, no poder ser exposta antes de se ter abordado um tpico mais geral, 
e  para esta tarefa que agora nos voltamos. 
* 
Por vris vzes, temos observado que todo o mundo experimenta seu eu como uma entidade particular entre outros 
muitos objetos. Conseqentemente, deve haver no crebro processos que correspondem no apenas a experincias 
objetivas, como tambm outros correspondendo ao eu experimentado. Os processos que representam o eu diferem, 
sob muitos aspectos, dos que correspondem a objetos exteriores, mas deve haver tambm caractersticas que ambos 
possuem em comum. Isso se deduz do fato de, algumas vzes, estar o eu em interao com experincias externas, de 
maneira precisamente igual  ao recproca das experincias externas entre si. Dois exemplos sero suf icientes para 
corroborar esta observao. 
Quando um objeto fsico se move, a coisa visual correspondente tambm, em via de regra,  vista se movendo. H casos, 
contudo, em que, embora objetivamente um objeto se mova, e outro esteja em repouso, visualmente o primeiro permanece 
quase ou inteiramente estacionrio, ao passo que o outro se move. Isto no acontece apenas como iluso ocasional. O 
movimento induzido, como o fenmeno foi chamado por Duncker,7 ocorre em condies bem especficas e  sempre 
observado, quando existem tais condies. Assim, quando nuvens passam pela Lua em uma certa direo, v-se a Lua se 
mover na direo oposta. Quando o passageiro de um trem olha para um ponto da janela, os objetos de fora comeam a 
correr para trs. Qualquer mudana de suas relaes espaciais com outras coisas pode produzir ste efeito sbre um objeto 
que est fisicamente em repouso. Ora, precisamente a mesma coisa costuma acontecer com o eu, quando se muda sua 
relao espacial com os objetos exteriors. Assim, por exemplo, quando o ambiente gira em trno de ns, no tardamos a ter 
a impresso de que estamos rodando em sentido oposto. Neste caso, o movimento induzido do eu  transmitido por 
experincias visuais. Michote e Gatti mostraram que o mesmo efeito se produz, quando uma pessoa segura dois objetos em 
suas mos, os quais, graas a algum dispositivo, so, vagarosamente e no mesmo ritmo, movidos para um lado. Tambm 
7 K. Duncker, Psychol. Forsc!. 12, 1929. 
neste caso o sujeito sente que seu corpo gira na direo oposta. Dste modo, o eu apresenta o fenmeno do 
movimento induzido, exatamente como o fazem os objetos exteriores. 
Como segundo exemplo, escolherei o fato de que, do mesmo modo que outro qualquer objeto, o eu pode 
tornar-se membro de grupos perceptivos. Naturalmente, se ponho minhas mos sbre uma mesa, enquanto 
outra pessoa faz o mesmo no lado oposto da mesa, vejo quatro mos, formando um grupo de dois pares. 
Mesmo o eu completo pode, de certo modo participar de um grupo. Se algum me acompanha ao longo de 
uma rua e, se adiante de mim, caminha outro par, sinto (e vejo parcialmente) a mim mesmo como membro de um 
dos dois grupos. 
Nos captulos precedentes, o conceito de organizao foi aplicado a experincias externas. Os exemplos que 
acabamos de citar, porm, mostram que, na realidade, a organizao abrange todo o campo, o que significa que 
tambm o eu  includo. Em outras palavras, sustento que certos princpios gerais de funo aplicam-se 
tanto ao eu quanto a objetos em um sentido mais comum da expresso. A princpio, esta afirmao pode 
parecer um tanto estranha, porque a mentalidade tradicional se inclina a atribuir ao eu uma posio su 
generis. No preserva o eu szinho sua identidade, ao passo que quase tudo mais no campo  livremente 
mutvel? Apesar dessa identidade, no so os estados do eu muito mais intensamente variados que a 
experincia objetiva? No vou negar que stes sejam fatos importantes, que devem exercer poderosa influncia 
sbre qualquer organizao de que participe o eu. Disso no se segue, porm, que, quando consideramos o 
papel do eu na experincia, deixe de ser aplicvel o conceito da organizao em si mesmo. s vzes, tais 
fatos conferem ao eu uma posio central dentro do campo total, mas mesmo isto no , de modo algum, o 
que ocorre sempre. Afinal de contas, em muitas situaes, a experincia inclui outras pessoas e h 
circunstncias em que tais pessoas ocupam no campo uma posio mais conspcua que o prprio eu. 
Ao estudarmos o comportamento no sentido perceptivo da expresso, familiarizamo-nos com uma espcie de 
agrupamento, no qual a referncia dinmica desempenha um papel decisivo (Cap. 7). Dever ser lembrado 
como Watson, o partidrio do behaviorismo, descreveu o comportamento de uma criana. Viu a criana 
relacionada com um objeto, o que no abrange apenas o fato de, em seu campo visual, a criana e o objeto em 
questo serem um grupo-par. ste grupo particular tambm se caracterizava por uma relao dinmica, que se 
estendia de um a outro de seus membros. Do mesmo modo, quando um co ladra, a ao do animal muitas 
vzes ser percebida como se referindo, evidentemente, a um objeto particular, para o qual est dirigido o 
latido. 
171 
170 
Geralmente, no h formaes-grupos mais convincentes do que as que exibem fatres din&micos neste 
sentido. Vimos tambm que a referncia pode ser de duas espcies: ou positiva, isto , dirigida para o objeto, 
ou negativa, como , por exemplo, a atitude de se evitar uma coisa. Em ambos os casos, usaremos a expresso 
organizao bipolar, que visa a distinguir tais casos dinmicos dos grupos-pares originrios. 
A explanao em que nos familiarizamos com a organizao bipolar, contudo, evidenciou que, a ste respeito, 
no menos que nos outros, o comportamento percebido costuma retratar as experincias da criatura percebida. 
Em outras palavras, a organizao bipolar no ocorre apenas quando observamos o que os outros esto 
fazendo. Qualquer um pode-se ver dirigido para objetos particulares, ou dles afastados, de um modo que 
representa a mesma espcie de formao-par dinmica. De fato, alm dos estados de baixa vitalidade, 
dificilmente se encontra um campo total em que esteja ausente a organizao bipolar. O eu esta sempre, 
virtualmente, dirigido para alguma coisa ou se afastando dela. Os exemplos mais notvis so os das emoes e 
motivaes intensas, mas a ateno em geral pode tambm servir de exemplo. No caso da viso, sua direo 
costuma coincidir com a da fixao, mas esta conexo no , de modo algum, rgida. Na realidade, a ateno, 
como referncia a coisas particulares,  experimentada em sua forma mais pura quando, embora fixando-nos em 
determinado ponto, concentramos nossa ateno em um objeto depois do outro na periferia do campo. 
Evidentemente, a organizao bipolar se parece com situaes na Fsica em que linhas de fra ou processos 
dirigidos estabelecem uma referncia entre uma parte de um campo e outra. Na Psicologia da Gestalt, as 
diversas atitudes dirigidas do eu no so interpretadas como instintos que residem no eu per se, e, sim 
consideradas como vetores, que dependem tanto do eu como de determinados objetos, ou mais 
precisamente da relao que perdura, na ocasio, entre as caractersticas dos primeiros e as dos segundos. Isto 
est, natural. mente, bem de acrdo com a maneira pela qual vetores fsicos entre objetos dependem das 
caractersticas-em-relao dsses objetos. Os vrios estados do eu aqui abrangidos so, em alto grau, 
determinados pelas condies fisiolgicas dentro do organismo. Estudos de apetites especiais, do 
comportamento sexual, etc., tornaram tal fato perfeitamente claro. Mesmo quando o adulto tem formas de 
comportamento bem estabelecidas com relao a um vetor particular, suas atividades habituais a sse respeito 
no costumam aparecer, a no ser que as condies no interior do organismo sejam favorveis. Por outro lado, 
sob condies internas mais favorveis, a ao pode ser forte, mesmo quando no se encontram presentes 
objetos bem adeqados. A despeito de tudo isto,  igualmente verdade que a fra dos vetores psicolgicos 
1 7 
tambm  uma funo dos objetos que so oferecidos. As melhores investigaes no campo no deixam dvida a sse 
respeito.8 
Nossa comparao da organizao psicolgica bipolar com a ao do campo na Fsica tem grande significao. De fato, 
mostramo-nos inclinados a presumir que, quando o eu se sente de um modo ou de outro relacionado com um objeto, h 
realmente um campo de fra no crebro que se estende dos processos correspondentes ao eu aos processos 
correspondentes ao objeto. O princpio do isomorfismo determina que, em dado caso, a organizao da experincia e os 
fatos fisiolgicos subjacentes tm a mesma estrutura. Nossa hiptese satisfaz sse postulado. No prximo captulo, 
mencionarei outros fatos que apontam para a mesma direo. 
O conjunto de vetores psicolgicos, as fontes que lhes do origem, as tenes que algumas partes do campo sofrem sob a 
sua influncia, as vrias mudanas que assim so causadas e, finalmente, a cessao de vetores e tenses, quando so 
alcanados certos resultados, tudo isto constitui o principal estudo da Psicologia e o principal contedo da vida. No 
podemos tratar de tais problemas neste captulo. Para nossos objetivos imediatos, contudo, aprendemos uma lio 
importante nestes pargrafos: quando usamos o conceito de organizao, temos de aplic-lo ao eu, tanto quanto s outras 
partes do campo. 
Podemos, agora, voltar ao estudo da memria e da evocao. Tem o fato da organizao bipolar alguma conseqncia nesta 
parte da Psicologia? Uma conseqncia evidente  a que se segue. Verificamos que a associao significa a sobrevivncia de 
traos unitrios, quando ocorreram processos organizados. Ora, se o eu forma unidades funcionais particularmente fortes 
com objetos, com os quais se relaciona pelos vetores, ento no smente essas experincias externas, como tambm essa 
operao de vetores, com correspondentes estados do eu e objetos correspondentes, devero,  de esperar, deixar tais 
traos no sistema nervoso. Na realidade, ns, naturalmente, nos lembramos de nossas antigas atitudes, quando certas 
situaes se apresentam de nvo, da mesma maneira que podemos lembrar-nos dessas situaes, quando as atitudes surgem 
mais uma vez. 
Segue-se, porm, algo mais importante do fato de os vetores atuarem em situaes psicolgicas e de suas atuaes terem 
ps-efeitos.  muito comum a seguinte experincia: tenho de executar uma tarefa de que possivelmente no goste, mas que 
 urgente. No decorrer do dia, porm, vejo-me ocupado com muitas outras coisas. Converso com amigos, leio 
8 No caso de alguns vetores, no conhecemos condies fisiolgicas particularc que determinem o lado interno da 
organizao bipolar. Por exemplo: depois de terem ficado ss durante longos periodos, a maior parte das pessoas sente um 
forte impulso para o contacto social, mesmo com estranhos. Sob alguns aspectos, sse vetor atua de urna maneira muito 
semelhante  necessidade de alimentao, de bebida ou de um companheiro.  de se indagar se a falta prolongada de 
contacto social e, em conseqncia, de objetos, suficientemente interessantes, pode criar uma situao particular no 
sistema nervoso e se, de um modo geral, tal estado  comparvel  falta de alimento, gua, etc. 
173 
4 
um livro, etc. De vez em quando, contudo, algo semelhante a uma presso se faz sentir em meu ntimo e, examinando, 
verifico que essa presso procede da persistente tendncia de ser relembrada a tarefa, e, assim, entrar no campo de ao 
presente. Evidentemente, o fenmeno s pode significar que o trao em questo ainda contm um vetor. Em relao com 
tais observaes  que importantes experincias realizadas por Lewin e Zeigarnik podem ser melhor compreendidas.9 
O sujeito recebe a incumbncia de executar uma seqncia de tarefas simples. Tem, por exemplo, de copiar algumas linhas 
de um livro; de continuar a execuo de um ornamento, cujo princpio  apresentado como amostra; de resolver um 
problema simples de Matemtica; de dar os nomes de doze cidades que comecem com a letra L, etc. Em alguns casos, le 
pode terminar o trabalho, em outros o experimentador o interrompe, antes de ter sido o trabalho completado. Depois de 
uma srie de tais tarefas, apenas metade das quais foi completada, indaga-se do sujeito, de maneira casual, se se pode 
lembrar das tarefas. A informao prestada nestas circunstncias costuma ser extremamente interessante. As primeiras 
tarefas de que o sujeito se lembra habitualmente esto entre as que foram interrompidas e, geralmente, as tarefas dessa 
categoria so mais lembradas que as das outras. Em uma dessas experincias, em que foram examinados 32 sujeitos, 26 se 
lembraram mais das tarefas interrompidas que das completadas; em todos os sujeitos juntos, a superioridade das primeiras 
tarefas elevou-se a 90%. Foram tomadas precaues para se eliminar a influncia de propriedades particulares das tarefas 
individuais: tarefas que eram interrompidas com alguns sujeitos eram completadas no caso de outros sujeitos, em nmero 
igual. De uma srie de 22 tarefas, 17 foram mais freqentemente lembradas, depois da interrupo, do que depois de 
completadas. A mesma experincia foi repetida com outros sujeitos e a superioridade da evocao para as tarefas 
interrompidas foi em mdia 90% de nvo. Em uma terceira experincia, em que os sujeitos eram crianas, a mdia foi de 
110%. 
A explicao apresentada pelos autores chama a ateno para o fato de que, quando procura resolver um problema, o 
sujeito se encontra em um estado de tenso que se refere ao seu trabalho, e ste estado de tenso costuma persistir at que 
se chegue  soluo. Se o trabalho  interrompido antes de ser completado, o trao da situao conter a tenso. E 
justamente como, durante o trabalho, a tenso o mantm em andamento, ela ainda atua na mesma direo, quando, depois 
da interrupo, a situao se tornou um trao. Como a evocao seria o primeiro passo para se completar a tarefa, o 
resultado da experincia  perfeitamente compreensvel.10 Se esta explicao  correta, deve ter 
9 Cf. Psyehol. Forsch., 9, 1927. 
10 De passagem, podemos observar que, neste ponto, deve ser reconhecida certa relao entre as averiguaes da Psicologia experimental e os 
conceitos freudlanoe. 
conseqncias susceptveis de ser verificadas. Mencionarei apenas uma. No podemos esperar que, em condies normais, 
as tenses nos traos sejam conservadas para sempre. Parece muito mais provvel que desapaream, pouco a pouco. 
Verificou-se que ste , de fato, o caso. Quando a evocao foi examinada, depois de um retardamento de 24 horas, a 
superioridade das tarefas interrompidas decrescera considervelmente. 
stes fatos referem-se  evocao como dependentes das caractersticas da situao original. Outro problema diz respeito  
questo de se saber at que extenso a evocao  influenciada pelos vetores apresentados, quando ela prpria ocorre. Sob 
ste aspecto, muitas experincias acrca da memria so susceptveis de severa crtica. No Captulo 8, vimos que, quando 
os sujeitos decoram ativamente material sem sentido, os resultados no podem ser interpretados como se se referissem a 
associaes automticamente formadas. Do mesmo modo, quando  apresentada aos sujeitos uma slaba com a tarefa 
explicita de evocar a seguinte, os resultados podem diferir grandemente dos que seriam encontrados em uma prova de 
evocao espontnea. Tambm neste caso, o processo experimental comum est longe de satisfazer a lei clssica 
concernente  associao e evocao por contigidade. Se quisermos acompanhar o sentido evidente desta lei, devemos 
apresentar ao sujeito uma slaba sem qualquer instruo e em uma situao em que coisa alguma o faa suspeitar de que le 
deve evocar um componente associado. O problema consiste em saber se, em tais circunstncias, aqule componente  
espontneamente evocado. Em sua maior parte, os experimentadores no procedem dessa maneira, mas, ao contrrio, 
pedem a evocao. Ora, justamente como um sujeito pode ser dirigido a partes de seu campo presente, tambm pode ser 
encaminhado a coisas que ficam para alm dsse campo, por exemplo, coisas e acontecimentos do passado. Esta  uma 
atitude que comumente assumimos, quando procuramos lembrar-nos do nome de uma pessoa ou de um lugar. A atitude  
susceptvel de ter influncia sbre a evocao. Embora na lei da associao ste fator jamais seja mencionado,  le porm, 
geralmente introduzido nas experincias que se referem  lei. Poucas so as investigaes em que tenha sido evitada essa 
inconsistncia, 
H alguns anos, muitos psiclogos teriam dito que a evocao automtica  um dos principais motores da vida mental e do 
comportamento. Neste ponto, grande precauo se mostra aconselhvel presentemente. As provas experimentais opem-
se a sse ponto de vista. Tem-se mostrado que a evocao no ocorre, a no ser que tenham sido satisfeitas condies 
particulares. O trabalho mais importante neste campo foi feito por Lewin.1 Entre suas experincias, h uma em que ste 
problema foi examinado diretamente. Lewin fz com que os sujeitos 
11 Psijchol. Forso1., 1 e 2, 1922. Experincias mais ou menos semelhantes tinham sido feitas antes por Poppelreuter (Zetschr. 1. Psyc1ol., 61, 
1912). que foi tambm o primeiro a fazer as crticas mencionadas no texto. 
175 
174 
aprendessem pares de slabas, ou da maneira habitual, ou por um nvo processo, que no posso descrever 
aqui. Depois de grande nmero de repeties, distribudas por vrios dias, foram apresentadas aos sujeitos 
slabas isoladas, com a recomendao de l-las e esperar em seguida. De vez em quando, era mostrado um 
primeiro membro de um dos pares prviamente apresentados. De acrdo com o ponto de vista tradicional, era 
de esperar que o segundo membro do par fsse imediata e automticamente evocado. Em geral, porm, tal no 
era, de modo algum, o caso. Mesmo quando a recomendao era mudada, passando a ser para que o sujeito 
dissesse a primeira coisa que lhe ocorria depois de ler cada slaba, o resultado mostrava-se totalmente 
negativo.  interessante examinar as excees, em que efetivamente ocorria a evocao da slaba associada. 
Quando um sujeito recebe instrues para esperar passivamente, sua atitude no  bem definida. Depois de 
algum tempo de espera, quase sempre surge uma atitude ou outra. Assim, por exemplo, se uma slaba parece 
familiar, h a tendncia de identif ic-la e de examinar os itens em funo do passado. Ora, logo que os sujeitos 
comeavam assim a ser dirigidos para o velho contedo, a evocao ocorria com muita freqncia. No era, de 
modo algum, uma evocao espontnea, uma vez que no teria ocorrido sem aquela tendncia particular do 
sujeito. 
Como base para a evocao, no basta que o sujeito seja apenas dirigido, de algum modo, para o objeto 
presente. Nas experincias de Lewin, era necessrio um vetor dirigido ao componente como se pertencesse a 
acontecimentos do passado; de outro modo, a evocao no ocorria. Fatos semelhantes podem ser 
observados fcilmente na vida comum. Assim, por exemplo, objetos muito conhecidos esto fortemente 
associados aos seus nomes. No obstante, quando caminhamos por uma rua e somos levados a olhar muitas 
coisas, ficamos longe de relembrar os nomes da maior parte dessas coisas. Se fr levantada a objeo de que 
os objetos esto associados a muitas outras coisas alm de seus nomes e que tdas essas vrias associaes 
inibem umas s outras, ste prprio argumento admite que inmeras associaes poderosas no levam 
normalmente  evocao correspondente.  lamentvel que ste fato seja constantemente ignorado nas teorias 
empricas. Quando, porm, as associaes se tornam realmente eficientes? Suponhamos que o leitor est 
andando comigo por uma rua e que acaba de aceitar minha explicao, acrca da falta de evocao no que diz 
respeito aos nomes dos objetos comuns.  provvel que, imediatamente depois disso, o leitor d seus nomes a 
todos os objetos conhecidos que encontrar na rua. Isso prova claramente que a inibio mtua das vrias 
associaes no pode ser o principal fator que impede a evocao em tal situao. Realmente, onde esto 
agora essas inibies? O ponto decisivo , naturalmente, que nossa conversa provocou no leitor uma atitude, 
no smente para com os nomes em si mesmos, mas tambm para com a nomenclatura como uma forma 
especial de evocao. Como 
178 
conseqncia, as associaes correspondentes comeam a operar imediatamente. 
Estas observaes so reveladoras. Para os fatos serem importantes, no  estritamente necessrio o ambiente 
de laboratrio. No deveramos jamais ter acreditado que  principalmente a evocao espontnea que mantm 
em andamento a vida mental e o comportamento. Em qualquer ocasio, encontramo-nos ocupados com algum 
trabalho, com algum problema ou com o assunto de uma conversa, etc. Nestas condies, as relaes 
dinmicas entre o eu e seus objetos so susceptveis de se desenvolver de uma maneira coerente e 
consistente, que d suas significaes evidentes s expresses trabalhar, resolver nosso problema, 
defender uma tese e outras semelhantes. De vez em quando, isto pode parecer uma descrio um tanto 
otimista da vida. Assim, por exemplo, quando volto ao meu manuscrito, meu trabalho pode no ser logo de 
todo coerente. A princpio, mesmo um rudo ligeiro pode distrair-me e um pequeno transtrno, atrs do outro, 
pode ter o mesmo efeito, at que, finalmente, se estabelece de nvo um fluxo contnuo de atividades coerentes. 
Que acontece, porm, com a evocao, quando ocorre ste feliz estado de coisas? Todos os conceitos e 
palavras que ocorrem em meu trabalho esto associados com outras palavras, idias e situaes, que, em sua 
maioria, nada tm a ver com a presente tarefa. Tais associaes pertencem a pocas e intersses muito 
diferentes da minha vida. Ora, se cada uma causasse automticamente a evocao correspondente, meu 
cenrio mental logo se tornaria um caos de partes incoerentes. Na verdade, o trabalho prossegue como uma 
cadeia auto-suficiente de operaes que  susceptvel de alcanar a finalidade que tenho no esprito de uma 
maneira bem ordenada. Ainda que, no princpio, qualquer coisa prticamente possa afastar-me do meu curso, 
dentro em pouco estou to bem dirigido que, depois de uma distrao temporria, vejo-me sem demora 
voltando ao caminho certo. A evocao espontnea de uma coisa ou outra pode explicar algumas dessas 
perturbaes, do mesmo modo que os rumres acidentais, mas no explica a consistncia com que se processa 
o prprio trabalho. Comparado com os vetores pelos quais, em tais circunstncias, o eu se liga  sua tarefa, a 
evocao espontnea independente deve ser um fator de iinportncia secundria. 
Isto tem sido convincentemente demonstrado em algumas das experincias de Lewin. Descreverei suas 
observaes de maneira ligeiramente simplificada. Para comear, os sujeitos tiyeram ainda uma vez de aprender 
pares de slabas sem sentido. Foram-lhes, depois, apresentadas algumas outras slabas, com a recomendao 
de que, em cada slaba, a primeira letra fsse colocada no lugar da ltima e vice-versa. O resultado tinha de ser 
anunciado, e o tempo necessrio  operao devia ser medido. O leitor deve ter notado que temos a, em forma 
simples, precisamente, a situao que acabei de descrever. O sujeito est traba177 
lhando em uma tarefa especfica. Ora, se entre as slabas  apresentada a primeira de um par prviamente associado, a 
evocao correspondente acarretaria uma reao errnea. Qualquer tendncia nessa direo iria pelo menos inibir a reao 
correta, de modo, que, em tal caso, o tempo da operao seria aumentado. Por outro lado, se uma slaba agora apresentada  
de nvo o primeiro membro de um par prviamente associado, mas se, ao mesmo tempo, a slaba que o sujeito deve formar 
 idntica ao segundo membro daquele par, qualquer tendncia de evocar esta slaba facilitaria a reao correta, e o tempo da 
operao seria reduzido. Para surprsa do autor, nada disso foi observado. No houve reaes errneas correspondentes a 
evocaes independentes e espontneas. Alm disso, quando qualquer tendncia dessa espcie inibia a reao do sujeito, o 
tempo da operao no era, via de regra, superior ao mdio. E, quando tal tendncia acelerava a reao, o tempo da 
operao era o mesmo no caso das slabas de contrle.2 Evidentemente, nas circunstncias dessas experincias, os vetores 
atuam de acrdo com as recomendaes aceitas, por mais forte que possam ser as associaes que ligam as partes da 
situao determinada ao material estranho. 
O Dr. Lewin entende que, de certo modo, ste fato pode ser explicado em funo de um princpio que foi discutido no 
como dste captulo. Lembramos que se um A foi associado com um B, a apresentao de A no acarretar a evocao de 
B, no caso de as caractersticas de A no serem j as mesmas que eram quando a associao se formou. Tambm sabemos 
que essas caractersticas sero alteradas se, apesar de serem dados, de nvo, os estmulos correspondentes a A, A  parte 
de uma organizao mudada na ltima ocasio. Ora, quando, durante a aprendizagem, uma slaba  lida de modo natural,  
tomada como uma unidade simples. Se, porm, o sujeito obedecer depois  recomendao, de acrdo com a qual a primeira 
e a ltima letra da slaba tm de mudar de lugar, o sujeito aprender a slaba em funo desta tarefa. Como conseqncia, a 
slaba aparecer em uma organizao modificada. Assim, por exemplo, suas duas letras mais importantes j no se 
apresentaro nas partes mais destacadas. Isto pode bastar para tornar a slaba incapaz de evocar, espontneamente, sua 
companheira. A explicao parece corroborada pela observao de que a maior parte dos sujeitos de Lewin no percebeu 
que slabas conhecidas eram apresentadas entre as novas. Seria aconselhvel fazer experincias semelhantes com outros 
materiais, cujas caractersticas fssem mais especficas do que slabas sem sentido e que apresentassem menos 
probabilidades de serem perceptivelmente mudadas em um nvo campo. Nem eu, nem o Dr. Lewin nos convencemos de 
que j se possa apresentar uma teoria inteiramente adequada a respeito dsses fatos. Em 
12 Deduz-se, do reeultado dessas experincias, que no podemos, como N. Ach props, medir a conao pelo vigor das associaes opostas que 
justamente equilibram a conao. 
178 
algumas das experincias de Lewin a atitude dos sujeitos em face das slabas era virtualmente idntica no teste 
 que foi durante a aprendizagem. Nem por isso deixou de haver evocao enquanto os sujeitos procuraram 
seguir as instrues. De qualquer modo, se os objetos geralmente no provocavam a evocao de seu nome 
(c/. pg. 176) nem sempre isto pode ser explicado pela presuno de que os objetos em questo acham-se 
suficientemente modificados pelo seu ambiente atual. 
Em outras experincias, Lewin conseguiu provocar a evocao e tambm inibies, por meio de associaes 
prvias que atuavam contra determinada tarefa. Conseguiu-se tal coisa apresentando-se uma situao total 
particular. Suponhamos que, no caso de vrias slabas, a evocao leva a resultado idntico as do processo 
que a instruo realmente exija. Se em tais circunstncias o sujeito sucumbir  tentao de se fiar na evocao 
como o caminho mais fcil, essa atitude pode, inadvertida e completamente, tornar-se uma atitude de evocao. 
Uma vez estabelecida essa direo, a slaba seguinte ir evocar sua companheira, mesmo se neste caso, a 
evocao der um resultado que est em disparidade com a tarefa. Dsse modo, manifestaram-se, afinal, de fato 
no smente erros pela evocao mas tambm inibies da execuo correta. Isto quase parece mostrar que as 
associaes prviamente estabelecidas no podem influenciar determinado campo a no ser que esteja 
atuando um vetor correspondente. 
Hesito em aceitar tal coisa como tese geral. Para falar a verdade, a teoria psicolgica foi muito longe ao 
presumir que, quando associaes poderosas tenham sido formadas, a evocao ocorrer espontneamente, e 
em qualquer situao. Por outro lado, deveremos supor que, durante tda a nossa vida, no ocorra qualquer 
evocao a no ser que seja apoiada por um vetor naquela direo? Talvez seja aconselhvel manter nossa 
deciso em suspenso, at que investigaes futuras esclaream melhor o assunto.13 Enquanto isto, a verdade 
 que, precisamente, se ficar provado que os vetores desempenham importantssima parte na evocao, o 
aparecimento e desaparecimento de tais vetores tornar-se-o problemas de psicologia particularmente 
importantes. Os vetores surgem e persistem, mas tambm se modificam e desaparecem, por muitas razes. 
Pode-se presumir com segurana que, no estudo de tais fatos, mais uma vez nos defrontaremos com os 
problemas da evocao. No sabemos muita coisa a respeito da evocao de vetores em si mesmos, mas 
merece tda a nossa ateno a possibilidade de vetores que se mostraram ativos por uma vez serem de nvo 
suscitados pela evocao. 
Por esta e por outras razes, no devem ser tiradas concluses exageradas das explanaes anteriores.  
verdade que as atuais teorias sbre 
13 Depois de escritas estas palavras, o autor e Von Restorff realizaram um estudo especial sbre as condies das quais depende a evocao (cf. 
Psydhol. Forsch., 21, 1935). Nossas experincias parecem no deixar dvida quanto  ocorrncia real de evocao inteiramente espontnea, mas, ao 
mesmo tempo, confirmam o ponto de vista de que a evocao tanto pode ser facilitada como quase impedida por vrias condies da organizao. 
179 
o hbito, a associao e a evocao no esclarecem quantas condies devem ser satisfeitas para que uma situao bem 
organizada seja sriamente afetada pela evocao que no se ajuste a essa situao.  tambm verdade que mal estamos 
comeando a reconhecer os problemas mais essenciais neste campo.Alm disso,  felizmente verdade que, em milhes de 
casos, no ocorre a evocao embora isto devesse ocorrer, de acrdo com pontos de vista amplamente aceitos. Seja como 
fr, porm, a evocao, de um modo geral, continua sendo um dos fatos mais freqentes e mais importantes da vida mental. 
Se, ao escrever estas pginas, no estou sendo constantemente distrado de minha tarefa por uma evocao acidental, 
tambm  verdade que no posso escrever um nica palavra, se os efeitos da aprendizagem passada no estiverem atuando 
em todos os momentos. Constantemente, palavras inglsas surgem de algum lugar por meio da evocao. Ao escrever, 
minha mo se move sbre o papel, executando formas que surgem fdilmente, graas  habilidade acumulada. Seria ridculo 
se fssemos negar tais fatos e sua importncia nas atividades humanas. O problema consiste meramente em explicar 
porque, em seu conjunto, a evocao fica restrita a casos em que tem sentido, no que diz respeito a uma determinada 
situao em sua totalidade e em seu desenvolvimento orgnico. 
ste captulo trata da avaliao crtica e de problemas insolveis. Assim, poder aqui ser levantada mais uma questo, que 
foi h muitos anos discutida por Von Kries, mas que ainda continua em grande parte ignorada pela Psicologia. 
Suponhamos que dois itens, A e B, tenham sido associados. Como um processo A  ou A semelhante a A  produz uma 
evocao de B? Em alguns compndios, apresenta-se, a propsito, uma explicao fcil, em funo da teoria mecanicista: na 
ocasio em que inicialmente se formou a associao, o processo A seguiu determinada trajetria no sistema nervoso e, 
prticamente, no mesmo momento, B seguiu outra trajetria, nas proximidades. Presumia-se que, quando A e B chegavam 
ao crebro, algo acontecia s fibras que ligavam os lugares de chegada, de maneira que tais fibras se tornavam, da para 
diante, melhores condutoras. Partindo-se dste ponto de vista, deduzia-se que a evocao ocorreria no futuro quando um 
nvo processo A (ou A) seguisse a trajetria do A inicial at o mesmo ponto final, uma vez que ste lugar estava agora 
especialmente bem ligado ao terminal da trajetria de B. Seguindo a linha de menor resistncia, a excitao se espalharia 
partindo de B e reativaria a trajetria. No h quem no conhea ilustraes tais como a Fig. 24, que contm todo o 
esquema funcional da explicao. Trata-se, evidentemente, de uma teoria tipicamente mecanicista, em que a evocao no 
depende das caractersticas dos processos que foram associados. Se a (ou A) provoca a reconstituio 
180 
de B, isto s acontece porque os processos do tipo A so conduzidos ao longo de determinadas trajetrias a 
um lugar que est particular- mente bem ligado a outro lugar, em que B  representado por um trao. 
Por duas razes ste esquema no pode explicar a evocao: 1. Se o processo X, que  de todo diferente de A, 
fsse conduzido ao longo da trajetria de A, tambm tomaria a linha de menor resistncia, estender-se-ia ao 
trao de B e o reativaria, embora X jamais ocorresse juntamente com B. No se poderia objetar que a explicao 
s deve ser aplicada a processos que tenham ocorrido juntos antes. Na explicao prpriamente dita no  feita 
tal restrio, nem se pode dela deduzir porque a restrio deva ser feita. Dsse modo, o esquema no explica o 
que parece ser uma condio essencial da evocao. 2. Se um nvo processo A (ou A) inicia-se em outro 
ponto do rgo sensorial e, portanto, segue outra trajetria, no ir ao lugar que se achava prviamente ligado 
ao lugar do trao de B. Em conseqncia, no h motivo para que, em tais circunstncias, os efeitos de A se 
estendam ao lugar de B e no a qualquer outra parte do crebro. Isto quer dizer que, em tal caso, A no pode 
provocar a evocao de B, embora A e B sejam associados. Na verdade, porm, se, na ocasio em que a 
associao foi formada, A surgiu de uma regio da retina, um processo semelhante A (ou A) geralmente 
provocar a evocao de B, embora A proceda agora de outra regio da retina. Isto foi mostrado por E. 
Becher.4 O natural, portanto,  deduzir-se que a natureza de A, e no a sua localizao no sistema nervoso,  
que  decisiva para a evocao. 
Se fr argumentado que entre a nova trajetria de A e o lugar do trao de B tambm pode haver alguma 
trajetria altamente condutora, retrucarei que, com ste argumento, a explicao original  sacrificada, pois, 
agora, j no so trajetrias tornadas altamente condutoras pela associao que so responsveis pela 
evocao correta, e, sim, so feitas referncias a fibras excepcionalmente boas condutoras por motivos 
desconhecidos. E por que deveria apenas A, que  na verdade associada com B, ter a sorte de encontrar tal 
trajetria conveniente, de seu nvo lugar at B? O mesmo poderia tambm acontecer a quaisquer processos D. 
E. F., etc., que jamais estiveram associados a B, mas que encontrassem, 
14 Geijir-a un Seele. 1911. Lashley tem feito experincias semelhantes com ratos. Posso confirmar suas averiguaes. Por motivos de ordem anatmica, as experienclas 
de 
Becher parecem-me mais conclusivas que observaes na psicologia animal. 
Fic. 24. 
181 
por acaso, um bom caminho para chegar a B, de maneira que B pudesse ser evocado. 
A debilidade da presuno em seu conjunto reside no fato de que ela torna a evocao dependente da localizao do 
processo, como se um processo de determinada espcie seguisse sempre a mesma trajetria. Ora, no setor visual do sistema 
nervoso, por exemplo, um determinado processo pode ser conduzido ao longo de certas fibras, uma vez, e ao longo de 
fibras diferentes, outra vez. Nem determinadas cres, nem determinadas coisas ou formas, tm de ocorrer, apenas, em 
determinados lugares. De fato, na viso a correlao entre as vrias espcies de processos e as localizaes particulares  
aproximadamente zero. Isto exclui qualquer possibilidade de se explicar a evocao correta em funo de lugares e conexes 
anatmicas especiais. 
Nestas circunstncias, parece natural resolver o problema em trmos dinmicos e no mecanicistas. A semelhana entre um 
nvo A (ou A) e o antigo A desempenha uma parte no fato de A provocar a evocao de B, partindo de qualquer lugar, 
virtualmente. Ora, sabemos que a semelhana  um fator que favorece fortemente a formao de pares na percepo, 
mesmo quando os membros do par no so imediatamente vizinhos. O mesmo fator pode favorecer uma inter-relao 
especfica entre um nvo processo A e o trao de um antigo A. Se isso acontecer, o lugar de A j no desempenhar papel 
decisivo no processo e A ser capaz de provocar a evocao de B, onde quer que A fr localizado 15 
15 Os resultados da investigao citados na nota 13 da pg. 179 est5o em completo acrdo com esta Interpretao da evocao. 
BIBLIOGBAFIA 
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182 
Captulo 10 
Discernimento 
(In sight) 
Se a associao, o hbito e a evocao no so os fatos mediante os quais o curso da vida mental  
principalmente determinado, quais so os outros fatres mais importantes? H, para esta pergunta, uma 
resposta que nem sempre  claramente formulada, mas, no obstante, implicitamente aceita pela maior parte das 
pessoas. Ns a chamaremos a convico do leigo. O leigo acredita que muitas vzes sente diretamente porque 
quer fazer certas coisas em uma primeira situao e certas outras coisas em uma segunda. Se tem razo, as 
fras que determinam principalmente suas tendncias mentais e suas aes so, em sua maior parte, 
diretamente apresentadas em sua experincia. Nem todos os psiclogos compartilham dste ponto de vista. 
Muitos ainda acreditam que as pessoas fazem isto ou aquilo porque em uma primeira ocasio certos trajetos 
nervosos so particularmente bons condutores e, em uma segunda ocasio, outros trajetos. Segundo ste 
ponto de vista, as pessoas em quem os trajetos nervosos corretos so os melhores condutores em 
determinada ocasio, deveriam mostrar-se muito felizes com sua boa sorte, pois, por que deveriam as variaes 
da condutividade dos trajetos ser regularmente correlacionadas com as caractersticas e, portanto, com as 
exigncias de determinadas situaes? 
A crena do leigo parte da experincia quotidiana. Os defensores do outro ponto de vista parecem acreditar ser 
le o nico compatvel com o esprito cientfico. A quem deveremos seguir? Confesso que prefiro a convico 
do leigo. No tratamento dos processos sensoriais, os dados fornecidos pela descrio despida de 
preconceitos tm-se mostrado melhor guia do que os postulados da teoria mecanicista. Confiando nos 
primeiros, o terico da funo sensorial estabeleceu contacto com as 
183 
cincias naturais, de uma maneira jamais alcanada por aqules que consideravam o princpio mecanicista 
como o nico cientificamente aceitvel. Depois desta lio, considero-me justificado ao adotar o ponto de vista 
da experincia comum tambm com respeito ao campo total, em que desempenham um papel tanto o eu como 
seus objetos. Isto quer dizer que, tambm aqui, certas noes funcionais, supostamente impostas pela cincia, 
so agora rejeitadas. Espera-se que, do mesmo modo que na esfera da funo sensorial, a confiana na 
observao direta acabar, afinal, sendo recompensada com um contacto muito melhor com a cincia. 
Depois de terem sido reconhecidas como partes do campo total as coisas especficas, os grupos, os fatos, o 
eu, etc., no poderamos cometer maior rro do que voltar, neste nvel, ao atomismo. No podemos dar-nos 
por satisfeitos estudando certas entidades isoladas em um captulo, outras em um segundo captulo, o eu em 
um terceiro e as atitudes em um quarto. As condies da vida real no coincidem com as dessa rgida 
enumerao e classificao. Se colocarmos juntos os membros de uma classe, estaremos provvelmente, ao 
fazer isto, cortando os laos vitais das inter-relaes dinmicas. Talvez as inter-relaes dinmicas mais 
interessantes ocorram entre os membros de classes inteiramente diferentes. Em um museu anatmico, pode ser 
interessante ver juntas centenas de coraes; na Fisiologia, porm, a funo do corao est relacionada com 
a dos pulmes e no com a de outro corao. Se as coisas experimentadas so apresentadas como uma classe, 
o eu como uma segunda e as atitudes como uma terceira, poderamos ser tentados a acreditar que, partindo-
se das trs classes, seria possvel escolher espcimes individuais ad licitum e depois agrup-los para formar 
um campo total. Evidentemente, tal pretenso seria de todo pueril; h certas regras acrca das coisas, 
personalidades e atitudes que podem fazer parte de um campo. Para se perceber tal coisa, no precisamos ser 
um psiclogo da Gestalt. Mesmo, porm, a observao que acaba de ser feita deixa de lado um ponto de 
particular importncia e , a sse respeito, enganosa. Ser meramente graas a regras empricas que ficamos 
conhecendo os fatos que podem ser includos em um campo total? O leigo est convencido de que h nisso 
mais que uma simples regra. Afirma que sente quantas de suas atitudes procedem de coisas e situaes como 
reaes adequadas. Voltamos, assim, ao nosso ponto de partida. A espcie de experincia que o leigo afirma 
ter difidilmente desempenha um papel explcito na Psicologia cientfica de nosso tempo. Acho que devo 
colocar-me ao lado do leigo; que, por uma vez, le, e no nossa cincia, est cnscio de uma verdade 
fundamental. Realmente, a convico do leigo  susceptvel de tornar-se uma questo importante na 
Psicologia, Neurologia e Filosofia do futuro. 
Em nossas explicaes seguintes, tero de ser considerads observaes evidentes, quase corriqueiras. No  
por nossa culpa que, de maneira deplorvel, tais observaes tenham desaparecido da Psicologia 
cientfica e tenham, portanto, de ser novamente descobertas. Veremos, mais tarde, que precisamente aspectos to evidentes 
da experincia humana podem expressar fatos fundamentais da dinmica cerebral.1 
De vez em quando, encontro-me em uma atitude de admirao. A admirao, porm, jamais ocorre com um fato por si 
mesmo. Refere-se sempre a alguma coisa. No h, tambm, a menor dvida quanto ao objeto a que a atitude se refere. 
Assim, por exemplo, na noite passada, na sala de concertos, foi a voz de um contralto que se mostrou admirvelmente 
sria, calma e confiante. Incontestvelmente, ste fato foi objeto de minha admirao no o nariz de meu vizinho, ou as 
costas do maestro, nem qualquer outro dos milhares de objetos e acontecimentos que eu tinha diante de mim. A admirao, 
como as outras atitudes, tem uma direo. No meu exemplo, ela se dirigia  pessoa de quem procedia o canto. Muito bem. 
Ser que quero dizer com isto que a admirao simplesmente se estende a tal pessoa e ali se detm, como se fsse 
comparvel a uma comprida bengala, que se estendesse entre mim e aqule lugar? Se tal fsse o caso, a admirao no seria 
mais que uma terceira coisa entre duas outras, e uma relao causal entre a voz e a admirao s poderia ser 
hipotticamente presumida. Possivelmente esta relao tambm poderia ser verificada por meio de investigaes 
adequadas, mas, sem dvida alguma, no seria diretamente experimentada. Na realidade, nesta situao, eu tive experincia 
direta, primeiro, que a minha admirao estava relacionada com o canto, e no com qualquer outra coisa, e, segundo, que 
minha admirao constitua a reao natural quela maneira de cantar. Em conseqncia, no precisei de critrios indiretos, 
de investigaes cientficas, de coeficientes de correlao, para tomar conhecimento da conexo existente entre o canto e a 
minha admirao. Na realidade, minha experincia me disse mais do que a induo cientfica poderia dizer, pois a induo 
no trata da natureza da relao funcional que explica, ao passo que, no presente exemplo, um fato particular de causao 
foi diretamente experimentado como uma relao compreensvel. 
H algumas semanas, vi meu filho sorrindo pela primeira vez, e fiquei encantado. Como soube que meu sentimento dizia 
respeito ao sorriso? Se minhas experincias representassem um agregado de sentimentos, fenmenos e coisas, alguns dos 
quais dirigidos e outros no, mas todos distribudos de certa maneira, meramente como conseqncia de circunstncias 
histolgicas, em tal caso eu poderia apenas fazer suposies acrca das possveis relaes funcionais entre os vrios 
componentes do agregado. Potencialmente, uma mudana de qualquer componente poderia ser seguida por qualquer espcie 
de mudana em qualquer outra parte, e o nico meio pelo qual a verdadeira conexo 
1 Estas expltcaeS esto, naturalmente, Teiacionadas muito de perto com O conceito da organizao bipolar, 
exposto no Capitulo 9. 
184 
185 
funcional poderia ser descoberta seria a de variar as condies sistemticamente, at serem eliminadas certas possibilidades 
e outras serem estatisticamente verificadas. No presente caso, por exemplo, smente a concomitncia de um sorriso de uma 
criancinha com a experincia de se sentir encantado permitiria deduzir que havia provvelmente uma conexo entre os dois 
fatos. Mesmo assim, no poderia eu ter certeza absoluta at que todos os outros fatres tivessem variado suficientemente, 
mostrando-se irrelevantes. A que extremos chegaramos em Psicologia se fsse necessrio discutir sriamente tal tese! Em 
minha experincia particular, um lado do rostinho da criana mostra-se um pouco mais escuro, devido a uma sombra. 
Segundo o estranho ponto de vista que estamos agora examinando, poderia eu ter atribudo meu sentimento a essa sombra e 
no ao sorriso da criana. Uma hiptese to errnea smente poderia ser impedida por um nmero suficiente de casos 
opostos. 
Depois de uma longa caminhada, em um dia muito quente de vero, bebo um copo de cerveja gelada. Ao fazer isto, sinto na 
bca a frialdade e um gsto caracterstico. H, tambm, um grande prazer. Ser necessrio para mim ficar sabendo, pouco a 
pouco, que tal prazer provm da frialdade e do gsto? Que le nada tem a vem com a aranha que estou vendo na parede ou 
com o tamanho da cadeira que se encontra diante de mim? Evidentemente, no  necessria tal aprendizagem. No estou 
mais diretamente consciente de meu prazer em si mesmo e do tacto e do gsto em si mesmos que estou do fato de que o 
prazer se refere  frialdade e ao gsto. E sinto tambm que meu prazer  uma reao adequada queles fatos. Entre o prazer 
e sua base sensorial experimento o que  chamado em alemo seu verstandlicher Zusammenhang, que corresponde 
aproximadamente a relao compreensvel. 
O mesmo se pode dizer de muitos casos em que a atitude do sujeito  negativa. Durante duas semanas estive muito 
ocupado, preparando, cuidadosamente, um jgo de instrumentos para certas experincias. Esta manh, encontrei os 
instrumentos completamente desarranjados e fiquei irritado. Se eu dissesse, ento: Aqui est a janela, ali a mesa, em um 
canto os instrumentos, em um outro uma cadeira e perto da porta eu mesmo, furioso constituiria esta enumerao uma 
descrio adequada da situao? Evidentemente, no. Tenho certeza de que a porta, por exemplo, no tem a menor relao 
com a minha raiva. Descobrindo os instrumentos desarranjados, sei imediatamente que ste fato  que me irrita. E, ainda a, 
no s esta referncia particular  inerente  minha experincia, como tambm a raiva  considerada natural nas 
circunstncias. 
Em uma bela noite, em Tenerife, quando me encontrava calmamente trabalhando  minha mesa, assustei-me como jamais 
antes me havia assustado. De repente, a casa foi violentamente abalada e sacudida  minha primeira experincia de um 
terremoto. Poderia haver a menor 
dvida de que foi o sbito tremor que me assustou e no qualquer outra coisa? Evidentemente no. Mais uma 
vez a emoo foi sentida como tendo sido causada por uma experincia particular. Via de regra, no precisamos 
aprender, pouco a pouco, que acontecimentos intensos inesperados so seguidos pelo temor, como se a 
priori uma fisionomia amvel ou o perfume de uma rosa tambm, devessem ser acompanhados pelo temor. 
Quando o temor nos domina de sbito, sempre o sentimos como procedendo de fatos particulares. 
Depois de sentado durante meia hora em um restaurante onde h muita fumaa e muito falatrio, sinto-me 
impaciente e desejoso de sair. Evidentemente, essa impacincia refere-se a uma situao determinada. Estou a 
par da referncia, no devido a uma regra descoberta anteriormente na vida, de acrdo com a qual, em meu 
caso, tais condies tm sido regularmente seguidas de um estado de impacincia; na verdade, experimento 
diretamente, hic et nunc,, como aqule ambiente me perturba e me impacienta. Sinto que tais condies tm 
ste efeito necessrio; a conexo causal  parte de minha experincia. 
H dois dias, achava-me muito abatido, porque no conseguia uma apresentao satisfatria do que 
considerava ser o ponto principal dste captulo. Havia nestas circunstncias, dois fatos separados, o estado 
de depresso em si mesmo e, alm disso, certa situao intelectual? E entre as duas poderia ser presumida uma 
possvel conexo smente com base na prova estatstica? Tais perguntas parecem de todo artificiais. Quando 
tentei resolver meu problema, senti claramente que meu abatimento tinha origem naquela dificuldade. Alm 
disso, senti que tal abatimento era natural, em vista da situao. 
Em todos stes exemplos, minhas reaes internas so experimentadas como derivadas da natureza de 
determinadas situaes e, em certos outros casos, os acontecimentos ocorridos no ambiente so sentidos 
como derivados de minhas atitudes. Posso, por exemplo, olhar para a Fig. 1 de maneira passiva. Nestas 
circunstncias, vejo o desenho como dois grupos de pontos. Se, porm, enquanto a olho, algo me faz pensar 
em linhas oblquas, a figura  susceptvel de ser transformada em trs pares de pontos, cada um dos quais 
formando uma espcie de linha oblqua de um ponto mais baixo  direita at um ponto mais alto  esquerda. Se 
ocorre realmente esta transformao, sinto que ela se origina de minha atitude mental particular na ocasio. 
Suponhamos que eu coce a cabea ou cantarole uma melodia, enquanto se muda a organizao da Fig. 1. 
Certamente, no sentirei que tais atividades tenham qualquer relao com a transformao. 
Tomemos outro exemplo. Qual  o nome daquela cidade na Estrada de Ferro Santa F? Eis a questo. Quando 
procuro um nome, esta operao no ocorre como uma coisa  parte, nem o lugar em que o nome esquecido 
deve estar escondido constitui uma coisa em si mesma. Ao contrrio, sente-se que a procura est dirigida para 
o lugar do nome oculto. Quando afinal o nome surge, sente-se que o fato foi 
186 
187 
conseguido graas ao esfro da procura. Ora, no aprendi, pouco a pouco, que em tal situao a procura per se est 
relacionada com o aparecimento de um nome. Tambm no aprendi que, em tais situaes, um barulho do lado de fora  um 
fato irrelevante. 
Mantenho o brao horizontalmente durante alguns instantes. Dentro de pouco tempo, o brao no se conservar em tal 
posio, a no ser que eu faa um esfro especial. Na ocasio, percebo, pela experincia, alm dsse esfro, um cu azul, 
o canto de uma cotovia, o brao como uma coisa visual, o cheiro do cho molhado. H, tambm, uma sensao particular no 
brao levantado, uma sensao que se torna mais intensa,  medida que os minutos se passam, algo como um pso que puxa 
o brao para baixo. Geomtrica ou lgicamente, tdas essas experincias permitem muitas diferentes combinaes em pares. 
Meu esfro poderia ser relacionado com o canto da cotovia, o cheiro, a cr da mo levantada e com o azul do cu. Na 
verdade, porm, meu esfro no  algo  parte que pudesse ser igualmente bem relacionado com qualquer dessas 
experincias. Sinto, sim, que le mantm o brao na posio horizontal, contrariando aqule empuxo para baixo. Sinto que a 
natureza do empuxo exige precisamente tal esfro, para que o brao permanea em sua posio, e a natureza do esfro  
experimentada como compensando exatamente sse empuxo. Se algum descrevesse a situao mais pormenorizadamente 
em funo de dados locais, com seus lugares, suas direes (se tiverem), suas localizaes no tempo e mesmo com suas 
relaes quanto ao lugar, distncia, sucesso ou simultaneidade, semelhana, etc., ainda assim deixaria de mencionar a 
principal caracterstica da situao, que  a relao dinmica entre algumas de suas partes. 
Discutindo um caso um tanto semelhante, David Hume defendia, enfticamente, o ponto de vista contrrio. No sei como 
meu brao  levantado, quando quero levant-lo  disse le. Pode no haver nada mais que uma mera sucesso no tempo, 
uma vez que no conheo a natureza do mecanismo que realmente eleva o brao.  um argumento bem estranho, 
inteiramente alheio  anlise da pura experincia que Hume prometia oferecer. A sse respeito, quando falamos sbre o 
brao, devemos, naturalmente, tom-lo como uma coisa experimentada, no como um objeto fsico que se move no espao 
fsico. Quaisquer que possam ser, neste caso, as inervaes e as contraes dos msculos, uma anlise fenomenolgica teria 
de tratar aqui da inteno, por um lado, e do movimento do brao experimentado, por outro. O problema consiste em saber 
se a inteno  sentida como estranha ao movimento do brao, como  a cr de uma nuvem ou a cr da pele do brao na 
mesma situao. Neste ponto, o grande filsofo parece ter escorregado e, inadvertidamente, lanado mo de um truque de 
lgica. Assim fazendo, obscureceu a questo durante geraes. 
A fim de esclarecer ainda mais a importncia da presente explanao, considerarei agora uma objeo que tiro de uma 
observao 
prpria. Pode-se dizer que, afinal de contas, experincias de depender de, ser o resultado natural de, basear-se em, 
em assim por diante, no provam realmente que as onexes em questo sejam necessrias. Por exemplo: h muitos anos, 
eu me impressionava grandemente com a ouverture de Tristo e Isolda e, naquela ocasio, teria descrito minha satisfao 
como resultado direto e compreensivo de justamente aquela espcie de msica. No posso dizer, contudo, que minha 
reao  ouverture de Wagner ainda seja a mesma. Francamente, enfarei-me dela. Quase que posso dizer que, agora, o 
desgsto parece ser uma reao a essa msica perfeitamente natural. Ora, afetar realmente essa mudana a descrio que eu 
apresentei de minhas reaes anteriores? Podemos mostrar fcilmente que no h qualquer contradio.  verdade 
indiscutvel que, em situao fsica exatamente a mesma, exposta precisamente s mesmas ondas sonoras, determinada 
pessoa pode sentir hoje que estar deleitada  a nica reao adequada e, no entanto, algum tempo mais tarde, sentir 
desgsto quando ouve a mesma composio. Um meio simples de conseguir-se tal alterao consiste em oferecer  pessoa a 
mesma seqncia de sons algumas centenas de vzes por dia.2 Que acontece em tais circunstncias? Devemos distinguir 
entre melodias como fatos fsicos e melodias como experincias auditivas. Depois de algumas centenas de repeties, a 
maior parte das melodias j no tem, como experincia, as mesmas caractersticas que tinham no como. Passam a parecer 
vazias e cedias. A repetio as afeta, da mesma maneira que afeta at as melhores piadas e anedotas. Disso se deduz que 
as mudanas de reaes, quando as condies objetivas so constantes, esto inteiramente de acrdo com a nossa tese 
principal. Essa tese refere-se s relaes compreensveis entre fatos experimentados e reaes internas experimentadas. 
Logo que, com os mesmos estmulos, o material experimentado muda, j no podemos esperar que as mesmas reaes 
paream naturais e adequadas. Ao contrrio, deveramos desconfiar da tese se em quaisquer circunstncias as reaes 
continuassem as mesmas. 
Ainda h outro motivo para que a msica de que eu gostava h muitos anos, j no mais me agrade: neste meio tempo, eu 
mudei muito. Como posso esperar que, em uma personalidade modificada, os efeitos de determinada composio sejam os 
mesmos, como se a personalidade no tivesse mudado? Os efeitos dependem, no apenas de determinadas causas, mas 
tambm das caractersticas do sistema em que ocorrem os efeitos. Isto  verdade para a causao experimentada, como  
para a causao em Fsica. 
De modo muito geral, contudo, devo insistir de nvo que a conscincia de relaes causais no campo psicolgico deve ser 
distinguida das afirmaes quanto  coexistncia e concomitncia, mais ou menos regulares, de fatos psicolgicos. Em 
determinada experincia do pri2 K. Lewln e A. Karsten, Psychoi. Forsch., 10, 1927. 
188 
189 
meiro tipo, sua importncia, no que diz respeito  observao, nada tem a ver com o que possa acontecer em outros casos. 
Da mesma maneira que posso ter certeza absoluta de que agora estou vendo certa flor como vermelha, embora, se 
posteriormente me tornasse daltnico, esta flor me aparecesse como cinzenta  assim tambm determinada experincia de 
dependncia causal deve ser aceita por si mesma, ainda que outras experincias em situaes semelhantes no apresentem 
as mesmas caractersticas. 
 um velho princpio da cincia o de que nada torna mais aceitveis afirmaes positivas do que um franco reconhecimento 
dos casos, aos quais no se aplica tal afirmativa. No pretendo negar que, em inmeros casos, estamos muito longe de 
constatar pela experincia como um fato  ocasionado por outros. Deixe-se um sujeito observar um movimento que se 
repete em determinada parte do campo visual. Quando, mais tarde, sse sujeito v a ps-imagem negativa do movimento, 
ela o surpreender, contanto que ste seja seu primeiro contacto com o fenmeno. Sua surprsa prova que a ps-imagem  
ocasionada por condies das quais le no tem a menor conscincia, ou que no so sentidas como sendo casualmente 
responsveis por ste efeito. Muitos sujeitos, tambm, ficaro grandemente surpreendidos quando, depois de olhar 
prolongadamente o centro da Fig. 8, (pg. 100) nova forma aparecer de sbito diante dles. No sabero o motivo porque 
exatamente ocorre esta transformao. Certa vez, tive um fsico como sujeito em certa experincia dsse tipo. Pedi-lhe para 
assinalar tdas as transformaes, quaisquer que fssem que ocorressem, enquanto le fitava fixamente a Fig. 8. Nessa 
experincia, o modlo consistia de linhas brilhantes em um aposento que, a no ser isso, estava completamente s escuras. 
O resultado foi que, quando se completaram as observaes, o fsico perguntou-me como conseguira eu mudar os objetos 
com tanta rapidez e tantas vzes, embora o lugar em que me encontrava estivesse  distncia de vrios metros, e eu no 
parecesse ter-me movido. le nem ao menos desconfiou de que fatos ocorridos em seu prprio organismo eram os nicos 
responsveis pelas transformaes. 
Todo o mundo sabe que a disposio de nimo pode mudar, sem que saibamos quais so as causas da mudana. Do mesmo 
modo que podemos sentir de sbito que apanhamos um resfriado, sem saber onde nem quando, algumas vzes nos 
sentimos irritadios, sem que tenhamos experimentado uma causa para sse estado de nimo. Na verdade, a irritao no 
tarda a encontrar algo em que se descarrega e, ento, sse algo em questo provvelmente parecer um objeto adequado. 
Antes que isso acontea, porm, nada mais podemos fazer do que adivinhar qual ser a causa oculta do estado de nimo, 
pois, a princpio, sse estado no se referia a objeto algum em particular. Na realidade, podem ser responsveis alguma 
condio meteorolgica que afete o 
nosso organismo ou uma perturbao da digesto. No temos conscincia direta de tais influncias. 
Dste exemplo, podemos tirar duas lies. Em primeiro lugar, le confirma o ponto de vista de que, conquanto relaes 
dinmicas possam ser experimentadas, os efeitos tambm podem ser patentes, quando nenhuma experincia aponta suas causas. 
A segunda lio  que ambas as espcies de determinao podem ser unidas em um nico fato. Realmente, quando estamos 
irritados e descobrimos alguma coisa que esteja, mais ou menos, de acrdo com essa disposio interna, o objeto em questo 
imediatamente aparecer como uma causa de todo adequada a um acesso de raiva. E, no entanto, nossa reao pode ser muito 
exagerada pelas causas ocultas que nos tornaram irritadios muito antes dessa ocasio.3 
No vejo motivo, contudo, para que o fato da determinao oculta em alguns casos possa servir como argumento contra a 
causao experimentada em outros. No caso da clera e da peste,  sabido que os causadores das enfermidades so certos germes. 
Na diabete, ste no  o caso. Iria algum usar sse exemplo negativo como argumento contra a Bacteriologia? Podemos, 
portanto, calmamente, aceitar um dualismo semelhante na causao psicolgica. 
Apesar de todos os nossos exemplos, contudo, no ser a causao experimentada muitas vzes simplesmente um produto da 
aprendizagem? Se, em minha correspondncia, aparece um envelope com certa letra, o fato me faz ficar satisfeito, embora, se 
eu encontrar um envelope com outra certa letra, ocorra o efeito contrrio. Deixemos de lado os aspectos grafolgicos e 
estticos da situao e suponhamos que seja principalmente o conhecimento que tenho com os missi vistas que me faz olhar 
com agrado uma das letras e contrariado a outra. Em ambos os casos, percebo que as minhas reaes so provocadas pela vista 
de determinados objetos. No obstante, essas reaes parecem ter sido aprendidas. As mesmas palavras e letras no seriam tidas 
como causas adequadas de minhas reaes, se no tivesse ocorrido qualquer condicionamento correspondente. Por um 
momento, esta observao pode-nos fazer desconfiar de muitas afirmaes feitas nos pargrafos anteriores. Na realidade, 
porm, tais fatos no esto de modo 
3 Neste ponto, parece caber bem uma observao a respeito da Psicanlise. De acrdo com os psicanalistas, as pessoas muitas vzes no tm o menor 
conhecimento do motivo de se comportarem de uma ou de outra maneira. Sua verdadeira motivao pode ser muito diferente daquelas que, 
acreditam, sejas as atuantes. Podemos admitir que tais casos ocorram na vida normal e que existam muitos mais em condies patolgicas. Duvido, 
porm, que as observaes dessa espcie justifiquem o pessimismo natural para duvidar de inmeras experincias em que o leigo est claramente 
consciente de suas motivaes. A isto, gostaria de acrescentar que devemos distinguir entre duas coisas: em alguns casos, os adeptos de Freud podem 
ter razo, ao passo que em outros as pessoas apenas deixam de reconhecer seus estados interiores. Estou inclinado a acreditar que muitas 
observaes que O freudismo interpreta  sua moda so, na realidade, casos em que o reconhecimento no ocorre. O reconhecimento, que atua com 
perfeita facilidade na percepo,  surpreendentemente vagaroso no caso dos processos internos. A propsito: isto  verdade quer os fatos 
internos profundos meream ou no permanecer irreconhecveis, 
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algum em choque com nosso principal argumento. No presente exempio, certa caligrafia impregnou-se de experincias 
amistosas que tive com certa pessoa e, em outra, impregnou-se de fatos desagradveis pelos quais era responsvel outra 
pessoa. Estas prprias pessoas, se presentes, provocariam reaes correspondentes s que suas letras agora provocam, 
uma vez que elas esto impregnadas de uma ou outra significao.  um rro acreditar que, em tais exemplos, as reaes 
emocionais se tivessem ligado, pouco a pouco, com a caligrafia. A conexo que realmente ocorreu consiste no fato de que o 
aparecimento visual de certas palavras e letras, escritas de uma maneira ou de outra, tornou-se saturado de experincias 
positivas ou negativas do passado. Estando assim saturada, a caligrafia constitui, agora, uma causa adequada da reao 
emocional que descrevi. No  de admirar que se perceba que ela  a causa. 
Neste ponto, parece indispensvel nova observao. Quando tenho sde, sinto-me inclinado a pensar em uma bebida 
refrigerante. ste objeto de meu pensamento , naturalmente, trazido ao campo pela evocao.  claro, espero, que ste 
fato no tenha relevncia para nosso problema presente. No importa como a evocao possa ter sido provocada, uma vez 
que a idia da bebida se torne parte do campo, ste objeto  sentido como uma causa muito adequada para o meu desejo, e o 
desejo como algo diretamente compreensvel em vista de tal objeto. O simples fato de que algo penetrou no campo por um 
processo de evocao nada tem a ver com a questo de saber em que espcie de relao ste objeto  experimentado dentro 
do campo. Isto deve ser salientado, porque estamos to acostumados com explicaes em funo da aprendizagem, hbito, 
evocao, etc., que, quando se mostra que a situao deve algo ao passado e  evocao, ns nos mostramos inclinados a 
desistir de pensar nisso. No entanto, mesmo se tdas as partes de uma situao devessem sua presena a processos de 
evocao, ainda deveramos fazer a pergunta: algumas destas experincias, agora percebidas, so casualmente relacionadas? 
Voltamos  convico do leigo. A Psicologia e a Epistemologia da cincia se inclinam, ou a ignorar ste ponto de vista, ou a 
atac-lo, como se implicasse um grande perigo. David Hume tem sido muitas vzes mencionado como o responsvel por 
esta hostilidade. Parece-me, porm, que esta grande figura da histria do pensamento humano foi apenas o mais eminente 
representante de uma tendncia que tambm se fz presente na Grcia, h mais de dois mil anos, e que tem sua origem em 
profunda necessidade de clareza.4 
H uma espcie particular de clareza que no se combina muito bem com a convico do leigo e com minhas afirmaes 
neste captulo. ste ideal de clareza seria alcanado se o mundo pudesse ser con4 Assim, por exemplo, em algumas das discuss6es 
de Plato, a respeito das caracteristicas do mundo verdadeiramente real, a mesma tendncia faz sentir sua presena de maneira inequvoca. 
cebido como um nmero enorme de peas iguais e desiguais, que tm meramente relaes formais quanto  posio no 
tempo e no espao, semelhana, etc. Na famosa anlise da causao de Hume foi aceito tcitamente como certo que isto  
um verdadeiro retrato da experincia, de maneira que, afinal, le nada mais provou do que aquilo que havia implicitamente 
pressuposto no como. Hume no teve dificuldade em coligir exemplos que pareciam corroborar sua tese de que a 
causao jamais  experimentada, porque, em grande nmero de casos, no percebemos, realmente, como uma coisa  
determinada por outras. E, como le no discutiu outros casos, parece a muitos que a verdade do seu ponto de vista fra 
demonstrada alm da menor dvida. Acredita-se, em geral, que Hume foi o maior empirista de todos os tempos. No 
entanto, reduzindo o mundo da experincia a pedaos, entre os quais s prevalecem relaes formais, foi le inteiramente 
dominado por certas premissas e ideais intelectuais. Foi grande, mas no, em sentido rigoroso, um empirista. Os empiristas 
no admitem, ou no devem admitir, tanta coisa como certa. 
Em seu empirismo radical, William James atribuiu grande importncia ao fato de as relaes entre as coisas, quer 
conjuntivas quer disjuntivas, serem, do mesmo modo que muitas matrias da experincia direta particular, nem mais nem 
menos, que as prprias coisas. Na minha opinio, ste ponto de vista  antes um obstculo que uma ajuda em nosso 
caminho. E no concorre tambm para nos ajudar o fato de James, embora atacando o atomismo no tratamento da 
experincia, deixar claramente de reconhecer aquilo que chamamos de organizao (Cap. 5). De certo modo, isto , em um 
sentido purmente. lgico, podem ser consideradas as relaes entre tdas as partes e fraes de determinado campo, se 
estivermos interessados nesta possibilidade. Relaes to ubquas, contudo, de modo algum so suscetveis de nos fazer 
compreender porque, em dado caso, uma atitude  experimentada como surgindo por causa de um fenmeno ou objeto 
igualmente particular no campo. Em determinada situao, isto , via de regra, uma relao sui generis. E conquanto essa 
relao dinmica seja realmente experimentada, a multido das relaes formais a que James se refere no , geralmente, de 
modo algum, experimentada. Alm disso, essas relaes formais existem tambm, naturalmente, entre determinada atitude e 
qualquer outro componente do campo. Nestas circunstncias, parece mais importante compreender a grande diferena entre 
as relaes nestas duas significaes da palavra do que salientar que o ttulo formal pode ser afirmado em tda a parte. 
 justo salientar que, em alguns lugares, James aborda o nosso problema partindo de outra direo, como, por exemplo, 
quando fala em sustentar um objetivo sentido contra obstculos sentidos e vencer ou ser vencido;6 e tambm quando de 
acrdo com suas palavras o 
5 The Meaning o Truth, Prefcio. 
6 Some Problem of PMlosophy, pg. 213. 
192 
193 
experimentador sente a tendncia, o obstculo, a vontade, a tenso, o triunfo ou a desistncia passiva, da mesma maneira 
que sente o tempo, o espao, a rapidez ou intensidade, o movimento, o pso e a cr, a dor e o prazer, a complexidade ou 
quaisquer outros demais caracteres que a situao possa abranger.7  uma coisa muito pouco verossmil uma rde de 
relaes formais que se espalha indiferentemente atravs de todo o campo. O ponto crtico no est colocado precisamente 
onde tentei coloc-lo, mas no h dvida de que, s vzes, William James mostrava-se interessadssimo em dar  
determinao sentida sua parte na descrio da experincia.8 
Quando estudamos a organizao puramente sensorial, no tivemos uma oportunidade particular de apresentar o conceito 
de determinao experimentada, porque os efeitos mais simples da organizao sensorial no nos revelam, em sua maior 
parte, grande coisa a respeito da maneira como surgem. No afirmo que os campos sensoriais so destitudos de conexes 
causais experimentadas. Por exemplo: as situaes perceptivas oferecidas em pinturas so susceptveis de conter 
convincentes exemplos de tais relaes dinmicas, e o mesmo se d com muitas situaes perceptivas na vida comum (cf. 
Cap. 7). Isto, porm, no impede que as mais intensas experincias dessa espcie ocorram no campo total e digam respeito 
s relaes dinmicas entre o eu e certos objetos. Nestas circunstncias, parece aconselhvel restringirmos as explicaes 
seguintes tambm s relaes causais em que um dos trmos  o eu. 
A conscincia direta da determinao, tal como  descrita nos pargrafos precedentes, tambm pode ser chamada de 
discernimento (inight). Quando certa vez empreguei esta expresso, em uma descrio do comportamento inteligente de 
macacos,9 no se evitou, parece, inteiramente, um lamentvel mal-entendido. Verificou-se, algumas vzes, que os animais 
eram capazes de realizaes que no espervamos que ocorressem abaixo do nvel humano. Afirmou-se, ento, que tais 
realizaes envolviam o discernimento (insight). Segundo parece, alguns leitores interpretaram esta formulao como se 
ela se referisse a um misterioso agente ou faculdade mental que se tornara responsvel pelo comportamento dos macacos. 
Na verdade, de nada disso cogitei, quando escrevi meu trabalho. Espero que no surjam mal-entendidos semelhantes do 
presente estudo. Intencionalmente, o conceito de discernimento (insighi) foi agora apresentado em uma base de fatos 
inteiramente comuns e simples. No se trata aqui, de modo algum, de invenes ou outras notveis realizaes intelectuais 
e, longe de se referir a uma faculdade intelectual, o conceito  usado de modo estritamente descritivo. No irei negar que, de 
um ponto de vista filosfico,  da 
7 A Pluralistie Tinlverse, pg. 376. 
8 Depois da poca de James, pontos de vista semelhantes tm sido defendidos por vrios autores, cujos nomes sero encontrados na Bibliografia 
no fim clste captulo. 
9 The Mentality 0/ Apes, 1925. 
194 
maior importncia saber se a determinao de certas experincias pode ou no ser ela prpria experimentada. 
Por enquanto, porm, parece-me mais necessrio que o conceito em si mesmo seja claramente entendido do 
que se tais outras conseqncias fssem logo plenamente compreendidas. Procurei, tambm, deixar 
perfeitamente claro que, tomado em seu sentido bsico, o trmo discernimento (insight) refere-se  dinmica 
experimentada nos campos emocional e de motivao no menos que  determinao experimentada em 
situaes intelectuais. 
Por diversas vzes, tenho observado que, na experincia comum, nada pode ser mais evidente que o 
discernimento (insight), isto , a conscincia de determinao tal como  descrita neste captulo. Raramente 
falta de todo esta caracterstica a um campo singular total. No entanto, apenas uma pequena minoria dos 
psiclogos mostra compreender plenamente que ste  um dos mais importantes conceitos psicolgicos.  
verdade que muitos se expressam em trmos que mostram que o dscernimento (insight) ocorre em seus 
sujeitos ou em suas prprias experincias.  possvel, contudo, que isto acontea apenas porque a convico 
do leigo se traduz em certas formas de linguagem, que os autores empregam sem se mostrar claramente 
cnscios de suas implicaes. Em conseqncia, o discernimento (insight) no ocorre entre os conceitos que 
les empregam realmente em suas teorias. De fato, usar a linguagem do leigo no  a mesma coisa que verificar 
quanto contm essa linguagem de boa psicologia. H, tambm, aqules para os quais a anlise da experincia 
de Hume e as idias do sculo XIX representam uma estrutura que jamais ser sriamente afetada pelas 
conquistas posteriores. Aos seus olhos, o contedo dste captulo deve, de certo, parecer puro misticismo. 
Suponhamos que um representante dsse grupo esteja viajando em um nibus, onde tenha de 
ficar de p, porque o veculo est superlotado. Em certo momento, um indivduo dono de um corpanzil escolhe 
o p do nosso discpulo 
de Hume para descansar o seu. Em princpio, o discpulo de Hume no teria meio de decidir se a causa da raiva 
que se apossa dele  o comportamento daquele homem pesado ou o rosto bonito de uma ma que tambm 
viaja no nibus. Poder verificar pela experimentao ou induo, ou poder ter aprendido, no passado, a 
relacionar tais coisas corretamente. No poderia, porm, afirmar que suas convices tericas esto certas sem 
tais provas indiretas. 
Os behavioristas pertencem a esta classe? Muito provvelmente, les se negaro a alistar-se em qualquer 
classe, porque at agora nosso problema se restringiu ao campo das experincias, das quais o bebaviorismo se 
nega a tomar conhecimento. Na realidade, porm, isto no importa. O que o behaviorismo chama de processo 
cientfico , em tdas as circunstncias, a tcnica indutiva, a nica admitida pelos rigorosos discpulos de 
Hume. 
Nosso estudo, porm, pode ser transferido do campo da experincia para o da fisiologia do crebro. O leitor se 
lembrar de que, no 
195 
Captulo 2, resolvemos usar a experincia como um indicador dos processos que se interpem entre as 
condies externas e o comportamento patente do organismo. ste processo baseava-se no princpio do 
isomorfismo, isto , a tese de que nossas experincias e os processos que se encontram sob essas experincias 
tm a mesma estrutura. Presumimos, assim, que, quando o campo visual apresenta uma coisa como uma 
entidade destacada, o processo cerebral correspondente  de modo relativo isolado dos processos adjacentes. 
Em outro captulo, chegamos  concluso de que, por amor  coerncia, tnhamos de pressupor processos 
cerebrais particulares em que se baseia nossa experincia do eu em seus vrios estados. Ora, justamente 
como, na experincia, o eu est rodeado de objetos, assim tambm os processos que correspondem ao eu 
devem ocorrer no meio de processos que esto correlacionados com sses objetos. Temos, porm, 
experincias no smente de objetos em trno de ns, e do eu com seus vrios estados, mas tambm da 
causao psicolgica, na qual so sentidos estados do eu, como determinados por partes do ambiente ou, 
ocasionalmente, fenmenos no ambiente por atividades do eu. De acrdo com o nosso ponto de vista, s h 
uma maneira pela qual tais fatos de determinao experimentada podem ser representados no crebro: temos de 
nos utilizar daquilo que os cientistas chamam de lsica de campo. Em outras palavras, quando se sente que 
o eu  influenciado pelas caractersticas de certo objeto, isto quer dizer que, no crebro, os processos que 
suportam o eu experimentado devem ser afetados pelos processos que correspondem ao objeto. Mais 
particularmente, as caractersticas especficas dos processos correspondentes ao objeto devem, de algum 
modo, ser representados na rea em que ocorrem os processos que sustentam o prprio eu e, sob a 
influncia dsse campo, os processos correspondentes ao eu devem mudar de uma maneira ou de outra. 
Inversamente, uma atitude particular do eu a respeito de um objeto deve ter um correspondente fisiolgico 
que se estende ao local onde sse objeto  fisiolgicamente representado, de maneira que o processo 
correspondente ao objeto pode mudar sob a influncia do campo do eu. No primeiro caso, o estado 
modificado do eu no existiria independentemente, e, sim, teria sido estabelecido e mantido pelo campo do 
objeto. No segundo caso, o mesmo seria verdade quanto  mudana do objeto, que seria causada e mantida 
pelo campo do eu. Se tivermos qualquer confiana na suposio de que os conceitos funcionais bsicos da 
Fsica so aplicveis  dinmica cerebral, ste ponto de vista da situao representa a maneira mais simples 
pela qual tais esperanas possam concretizar-se. 
Para deixar ste ponto perfeitamente esclarecido, voltarei a um de nossos antigos exemplos. Quando, em uni 
dia quente, saboreio uma bebida gelada, sinto que o meu prazer se refere ao gsto da bebida e  minha sde, 
mas no, por exemplo,  aranha que est na parede, ao tamanho da cadeira que se encontra diante de mim ou a 
mil outras 
196 
coisas em redor. No crebro, mais particularmente na parte em que ocorrem certos auto-processos, h, em 
tais circunstncias, um processo particular B, em que se baseia minha experincia de sde. Ora, quando 
comeo a beber, outro processo A, que corresponde  frialdade e ao gsto da bebida, desenvolve-se 
precisamente na parte em que antes teve lugar apenas o processo correspondente  minha sde. De acrdo 
com a presente teoria, A imediatamente comea a exercer influncia sbre B, influncia que depende das 
caractersticas de A com relao s de B. A mudana que assim se estabelece  sentida como prazer. Esta 
mudana, presumo,  determinada por A to diretamente como a temperatura de uma superfcie  determinada 
pelos raios de luz que chegam at ela, ou como a intensidade de um fogo amortecido  reavivada por nova 
proviso de oxignio. Em outras palavras: o gsto da bebida e o meu prazer no so experimentados como 
fatos separados, mas o ultimo  causado pelo primeiro, porque os processos correspondentes no crebro so 
causalmente relacionados dsse modo exato. O discernimento (insigbt), tal como aqui  definido, no  mais 
que uma expresso dste fato. Naturalmente, a mesma interpretao deve ser dada a casos em que, 
inversamente, uma atitude particular do eu  sentida como modificando um objeto. 
Uma vez formulada, a presente teoria  to simples que pode quase parecer banal. Esta impresso, contudo, 
desaparece logo que nos lembrarmos de como a mesma situao seria tratada de acrdo com as idias agora 
aceitas. Mais uma vez a teoria mecanicista e a teoria dinmica apresentam vivo contraste. Nem nas reaes 
reflexas, nem nas condicionadas, nem mesmo nas associaes (como so habitualmente concebidas), as 
caractersticas qualitativas de um processo tm qualquer influncia alm do local dste processo. Os efeitos 
dos fenmenos, em uma parte do crebro sbre a situao em outras partes, so sempre transmitidos por via 
suficientemente boas condutoras. H primeiro um processo A em si mesmo, depois a transmisso de impulsos 
nervosos ao longo de certos trajetos como um segundo fenmeno e, finalmente, um efeito em um lugar B, um 
terceiro fato, que  produzido por aqules impulsos e no pela natureza particular de A. Tendo o mesmo A 
como ponto de partida, se outro trajeto  melhor condutor, entra em ao um processo diferente C em vez de B. 
A ocorrncia de A afeta B apenas devido s condies histlgicas, tais como so oferecidas quando A  
ativo. Suponhamos que pudssemos mudar um pouco a disposio das fibras nervosas. Talvez, se isso fsse 
feito com percia, uma bebida gelada tornasse um homem com sde aborrecido e furioso. 
Pode ser que esta interpretao fisiolgica jamais tenha sido expressamente formulada. Mas deveria ter sido, 
porque nenhuma outra interpretao pode ser deduzida dos conceitos ora largamente aceitos na Neurologia e 
Psicologia. Por que jamais  levada em considerao a teoria da ao direta do campo? Por que, se preferirmos 
tratar em 
197 
trmos psicolgicos, seja mencionado apenas por uns poucos o discernimento (insight) como fato fundamental e comum da 
vida mental? 
Por que no discutimos tantos problemas psicolgicos quantos podemos, como se os conceitos mecanicistas fssem os nicos 
aceitveis pela cincia? Nada mais fao do que deduzir conseqncias desta situao. Quanto mais vivamente pusermos em 
contraste as teorias mecanicista e do campo, tanto mais esperanas podemos acelentar quanto ao futuro da cincia.1 
No creio que tenham sido completas as nossas descries de certas experincias no campo total.  bem verdade que as reaes 
emocionais so comumente atribudas s suas causas justamente dsse modo. Nossos prprios exemplos, porm, nos mostram 
que h algo mais envol-vido do que simples emoes. Vejamos, por exemplo, a inquietao que se apossa de um homem que est 
sentado, h algum tempo, em um restaurante repleto de gente e barulhento. le no smente sente profunda averso pelo 
ambiente, como se mostra ansioso para sair. Em outras palavras: quer-se afastar do que sente ser a causa do mal-estar. Alm 
disso, em sua experincia, sse impulso para certa ao origina-se da situao dada to diretamente como seu desgsto. Assim, o 
homem tem discernimento (insight) tanto da causao emocional como da causao oriunda da motivao. 
Nossa vida est repleta de casos triviais desta espcie, mas  igualmente evidente que tambm podem surgir impulsos para aes 
mais importantes de uma maneira que possamos compreender perfeitamente. O como e o porque de tais aes, muitas vzes, 
no esto mais ocultos do que est a maneira pela qual nossos sentimentos so despertados. Examinarei aqui smente exemplos 
pertencentes  variedade mais simples. 
Em uma bela manh, estou sentado muito satisfeito em plena luz do sol. Depois de algum tempo, porm, acho que 
est fazendo muito calor e, ao mesmo tempo, surge a tendncia de me afastar do lugar em que me 
encontro. Parece agradvel um lugar  sombra de uma rvore, nas proximidades, e, imediatamente, 
o impulso para me afastar do soi torna-se uma tendncia para a sombra. Da mesma maneira que 
10 A interpretao do discernimento (insight) em funo da ao do campo no se ope apenas s concepes neurolgicas hoje 
predominantes. Ela tambm d a entender que no podem ser inteiramente corretas certas teses amplamente sustentadas por 
filsofos da cincia. De acrdo com sses autores, todos os conceitos na cincia que implicam causao so meramente 
conceitos auxiliares e no devem ser utilizados em uma descrio estritamente emprica do mundo fisico. As observaes na 
Fisica, dizem les, no oferecem experincia que corresponda ao vinculo causal. Se isto fsse verdade, os conceitos fra e 
campo ocupariam lugar na cincia apenas como instrumento matemtico conveniente e, em conseqncia, no 
correlacionaramos nossa experincia de determinao interna direta com a ao de campo no crebro. Discutindo ste 
problema, temos de concluir que os cientistas no desaprovam realmente o nexo causal na Fsica: apenas afirmam que a 
observao, tal como  agora utilizada pela cincia, no  jamais a observao do nexo causal em si mesmo. Em outras palavras: 
no aue diz respeito  cincia, os conceitos de causao, fra e campo permanecem indefinidos, do aue s deduz que qualquer 
prova de uma espcie diferente pode servir para dar uma significao a tais conceitos. 
a princpio as caractersticas de um lugar me faziam inclinar a afastar-me dle, agora as propriedades de outro lugar 
despertam um impulso para que eu dle me aproxime. Em ambos os casos h discernimento (in sight): sentimos como, no 
primeiro caso, certa tendncia surge da natureza de determinada situao e, em seguida, como outra parte do campo 
determina mais ainda a direo do impulso. O leitor se lembrar de que, para o nosso problema atual,  de todo irrelevante 
que as propriedades trmicas da sombra sejam conhecidas por ns, graas  aprendizagem anterior ou de maneira mais 
direta.1 
Uma descrio semelhante pode ser apresentada no caso do temor. Quando sentimos que um sbito acontecimento causa 
temor, surge ao mesmo tempo um impulso muito forte de nos afastarmos do fenmeno. E tambm essa tendncia de 
aumentar a distancia entre o fato atemorizador e o eu  experimentada como sendo o resultado direto do fato, justamente 
como o temor o . Observamos antes como, na descrio do comportamento de uma criana, por Watson, o ato manifesto 
de afastar-se de um objeto misterioso  no smente um dado do campo visual do observador, mas tambm um retrato do 
que acontece na prpria experincia da criana.12 Acreditar algum que a criana sente mdo do objeto e o impulso de 
afastar a mo como duas experincias, sem relao entre si? Ou que, em seu mdo, a criana pudesse igualmente sentir a 
tendncia de abraar ou engolir o objeto que a assusta? Um discpulo de Hume teria de afirmar que ste  o caso. Quanto ao 
fato de que neste caso o objeto s se tornou perigoso, graas  aprendizagem anterior, observarei mais uma vez que a 
maneira pela qual certa caracterstica se torna parte do campo no tem relao com o papel que le desempenha neste 
campo (c/. pg. 192). 
Do mesmo modo que o impulso do afastamento surge diretamente de certas situaes, tambm a tendncia oposta  sentida 
como sendo adequada a outras situaes. Mencionei o caso de uma sombra atrair uma pessoa que estve exposta ao soi 
durante algum tempo. Casos semelhantes so to freqentes que parece quase intil citar exemplos especiais. A criana que 
Watson viu estendendo a mo para a cabea de um animal, indubitvelmente sentia-se atrada por aqule objeto 
interessante. Quando, na Espanha, o toureiro atuou de modo particularmente destro e audacioso, a admirao dos 
espectadores os impele 
li No me esqueo de que partes subordinadas de nosso organismo apresentam reaes que so, de certo modo, 
semelhantes s aqui descritas e que, no entanto. pertencem ao tipo de movimento reflexo. Estimulado por uma picada, o p 
se afastar, por um reflexo. De tais fatos, porm, no pode surgir objeo contra a descrio que apresentamos de outros 
fatos. Em algumas de suas atividades, sem dvida, o organismo se parece com uma mquina muito prtica; ao mesmo 
tempo, em outros, quer dizer, naqueles em que o eu est envolvido, a causao experimentada e a dinmica de campo 
correspondente podem desempenhar o papel mais decisivo. No h motivo para que ambas as espcies de funo no 
possam ocorrer no mesmo sistema. 
12 A propsito, temos aciui um exemplo de fenmenos organizados em percepo que nos dizem algo acrca da relao 
causal entre certas partes do campo (cf. pg. 184). Pelo menos a referncia ao afastamento de um objeto particular era 
evidente na observao de Watson. 
198 
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to fortemente em direo ao heri, que, incapazes de entrar les prprios na arena, debruam-me e estendem 
os braos para se aproximar o mais possvel do toureiro. s vzes, a tenso torna-se to grande que so 
lanados na direo do impulso chapus, lenos, etc. Teria sido essa gente condicionada, pouco a pouco, a 
ligar a aproximao, em vez de outras tendncias, com a admirao, como se franzir a testa ou sacudir a perna 
esquerda pudessem igualmente ter-se combinado com a admirao por um condicionamento adequado? Acho, 
s vzes, que, sejamos ns partidrios da introspeco, do behaviorismo ou de outra escola qualquer, a 
principal linha que divide os psiclogos contemporneos separaria aqules que reconhecem a determinao 
direta, tal como  explicada neste captulo, dos que admitem apenas conexes no sentido da teoria 
mecanicista. 
Como ltimo exemplo, escolheria uma simples situao prtica. Por ste ou aqule motivo, quero partir uma 
tbua. Fao fra contra ela e, enquanto sinto meu esfro contra a resistncia da tbua, tambm sinto e vejo 
como a tbua cede na direo da presso. Devemos realmente acreditar em Hume quando sustenta que, em 
minha experincia, o fato de a tbua ceder est pouco relacionado com o meu esfro, como a cr da madeira 
ou, digamos, o movimento de uma nuvem? Na verdade, sinto quando a tbua cede diante de minha presso, do 
mesmo modo que me sinto ceder quando meo fras com um amigo, cada um de ns empurrando o outro com 
o ombro, e perco a batalha. Alm disso, logo que a tbua comea a ceder, imediatamente sinto a tendncia de 
aumentar a presso e, tambm, essa nova tendncia  experimentada como resultante da mudana na 
resistncia da tbua. 
Qual o contedo comum dstes exemplos? Entre certos fatos ou fenmenos em nosso ambiente e nossas 
reaes, experimentamos no smente relaes formais, mas tambm relaes causais especficas. Imaginemos 
que o seguinte acontecesse como simples seqncia: primeiro, eu me sinto incomodado perto de um radiador 
muito quente (mas no sei, at que tenha aprendido, pouco a pouco, que meu mal-estar est relacionado com o 
calor); em segundo lugar, como outra experincia, sem qualquer ligao com a primeira, sinto o impulso de me 
mover em certa direo (mas no sei, antes de aprender, que essa direo significa afastar-se do calor); em 
terceiro lugar, ainda desta vez como um fato sem relao com outros, vejo-me movendo-me em uma direo que 
realmente aumenta a distncia que me separa do radiador (embora eu no saiba, at que aprenda, que a direo 
dste movimento tem qualquer relao com o objeto ou com a tendncia que foi experimentada um momento 
antes). Acho quase impossvel enumerar essas experincias de uma maneira, da qual as referncias causais 
estejam to inteiramente excludas como deveriam estar se a escola de Hume tivesse razo. A linguagem 
humana, com suas implicaes e referncias, que constantemente apontam de uma palavra ou uma frase para 
outra, deve ser um instrumento extremamente incmodo 
para qualquer adepto de David Hume. Ao lermos as palavras das frases anteriores, surge imediatamente o discernimento 
(insight), por mais que procuremos impedir sua intruso. O que quero expressar , naturalmente, que, de acrdo com 
Hume, nenhuma experincia jamais exigir que outra acontea, e, no entanto, isto parece ser exatamente o que certas 
experincias sempre fazem. 
Agora que o conceito do discernimento (insight) foi aplicado s tendncias motoras experimentadas e aos movimentos de 
verdade, voltarei, mais uma vez, aos conceitos funcionais que prevalecem em nosso tempo e tornarei mais clara, assim, a 
viso dinmica ou do campo, pelo contraste. Consideremos a teoria mecanicista em sua forma mais rgida. De acrdo com 
essa teoria, a seqncia: sentir calor  sentir uma tendncia para se mover em certa direo  mover-se realmente nessa 
direo,  criada pela maneira com que os centros cerebrais esto ligados por condutos. Sentir calor tem um correlativo 
cortical algures no crebro. Dste ponto, fibras particularmente boas condutoras fazem a ligao com outro lugar, cuja 
excitao  acompanhada por uma tendncia a se mover em certa direo. ste lugar, por sua vez,  ligado, por meio de 
excelentes condutos, a outro lugar, onde comeam as verdadeiras inervaes de certos msculos. A evoluo executou uma 
tarefa admirvel estabelecendo essas conexes nervosas. Elas so de tal ordem que, na verdade, o segundo elo da cadeia  a 
tendncia de se afastar do lugar onde faz calor e no de sorrir escarninhamente ou sacudir o brao para diante e para trs. 
Do mesmo modo, as conexes com o centro adequado das inverses  devidamente disposta, pois, ao passo que esta 
conexo nos faz de fato afastar-nos do calor, com as outras conexes podemos, na mesma situao, comear a rir ou a dar 
tapas na testa. Como resultado de nossa ao, sentimos satisfao. Mas tambm isto  uma simples questo de conexo, 
que garante que entre em ao o centro cerebral para sentir alivio e no o centro cerebral para o desespro, por exemplo. 
Seja como fr, se esta interpretao das aes humanas estiver certa, jamais poderemos compreender qualquer uma das 
seqncias que ocorrem em nossas vidas. Assim, por exemplo, se, na mesma situao, mas com conexes diferentes, a 
sensao de intenso calor fsse seguida por uma tendncia de puxar o nariz de algum e esta tendncia por um rpido 
movimento em direo  fonte do calor e isto de nvo por qualquer outra sensao, tal seqncia poderia ser to 
compreensvel quanto a verdadeira, pois esta ltima tambm no passaria de mera seqncia, a que jamais poderiam ser 
aplicadas expresses tais como entendimento e discernimento (insight). Realmente, como poderiam ser aplicadas, uma 
vez que o primeiro pr- requisito da compreenso do entendimento est ausente dste esquema? ste primeiro pr-
requisito  a participao direta da natureza dos primeiros fatos na determinao dos fatos subseqentes, ou, em outras 
palavras, a determinao dinmica ou de campo de seqncias e no a determinao pela geometria dos condutos de 
conexo. 
200 
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Depois desta discusso, no parece necessrio voltarmos  tese que explica tais seqncias pela formao de conexes 
secundrias, isto , associaes e reaes condicionadas. Segundo os associacionistas, as associaes so cegamente 
formadas, no sentido de que a natureza de determinados fenmenos no tem influncia sbre sua associao. Alm disso, 
uma vez formada uma associao, supe-se que a evocao correspondente seja de nvo uma questo de melhores 
condutores, justamente como uma seqncia reflexa. Em resultado, tudo que se acabou de dizer acrca de uma seqncia 
reflexa serve tambm de explicao em funo de associaes ou reaes condicionadas. No comportamento, qualquer 
seqncia poderia ser bem estabelecida como a verdadeira, se a seqncia objetiva adequada fsse repetidamente 
apresentada. O resultado do processo dependeria, tambm neste caso, ainda apenas da condutividade dos trajetos. Assim, 
as expresses entendimento e discernimento (insight) seriam, mais uma vez, inaplicveis.3 
Nossa tarefa seguinte consiste em apresentar nossa prpria interpretao de tais seqncias. Oferecemos uma interpretao 
fisiolgica sbre a maneira pela qual os estados emocionais so sentidos como relacionados com suas causas 
experimentadas. Esta interpretao ser agora ampliada para incluir nossas tendncias motoras e subseqentes movimentos 
de fato. 
Como j dissemos, sentimos um estado emocional positivo ou negativo surgir da natureza de um fato, visto que o 
correlativo fisiolgico da emoo  diretamente provocado pelo processo que representa ste fato. Assim, em nosso 
exemplo, uma pessoa sente que seu mal-estar  causado pelo calor excessivo, porque o correlativo cortical da experincia 
trmica muda o estado de certas partes do crebro de uma maneira que, na experincia, significa mal-estar. Mas a tendncia 
a se afastar do calor  tida como proveniente do prprio calor, to diretamente como o desconfrto. Em conseqncia, 
devemos de nvo apresentar uma interpretao em funo da ao de campo fisiolgica. Em outras palavras, o processo 
que sustenta a sensao de mal-estar no  o nico efeito direto do calor, tal como representado no crebro, e, sim, um 
vetor que se forma ao mesmo tempo e no menos diretamente. sse vetor se estende dos processos que representam o 
calor (e sua fonte)  parte do crebro onde se forma o correlativo do mal-estar, e sua faculdade de atuao  a tendncia a 
aumentar a distncia entre 
13 Mais ou menos na ocasio em que ste livro foi escrito, o Professor Thorndike introduziu uma modificao no conceito 
de associao, modificao que depois estendeu  Lei de Efeito. A Lei de Efeito afirma que os efeitos vantajosamente 
biolgicos de movimentos fortalecem as conexes, cuja operao acarretou sses movimentos e, portanto, os efeitos. A 
princpio, foi tcitamente pressuposto que quaisquer seqncias, sem levar em conta sua natureza, eram fortalecidas dessa 
maneira, se fssem seguidas por um resultado biolgicamente favorvel. De acrdo com o nvo ponto de vista defendido 
pelo Professor Thorndike, a adequao de determinados fenmenos facilita sua conexo. a adequao um fato que 
depende das caractersticas dos fenmenos em questo e pode assim assegurar-nos discernimento (insiglLt)? No  ste o 
caso. Se acompanharmos Thorndike, adequao no precisa ser mais que a experincia mediante  qual um primeiro 
fenmeno combina-se com um segundo. 
os dois. Se, ento, o sujeito se afasta realmente da fonte de calor, que acontece no crebro? Enquanto a 
distncia objetiva aumenta, a distncia correspondente no crebro tambm cresce, o que  precisamente a 
mudana implcita no sentido de vetor tal como foi apresentado h um momento. Ver-se- que, com esta 
interpretao, estaremos mais uma vez seguindo o princpio do isomorfismo, pois, na experincia, temos a 
sensao de que o movimento real est de acrdo com a tendncia de se mover, que acompanha o mal-estar, 
isto , a pessoa em questo tem discernimento (insight) a respeito da relao entre sua tendncia de deslocar-
se em certa direo e o movimento real. 
Admito, sem relutncia, que estas observaes esto longe de oferecer uma descrio completa dos fatos em 
estudo. Mesmo se deixarmos de lado a questo de saber precisamente que espcie de vetor est atuando em 
tais circunstncias, no explicamos porque a presena de tal vetor no crebro costuma ser seguida de 
movimentos que esto de acrdo com a direo do vetor. Parece que, durante os primeiros meses depois do 
nascimento, a criana no  capaz de executar diretamente os movimentos que correspondem a seus 
intersses, com relao a determinados objetos. Devemos, portanto, indagar que acrdo entre as tendncias 
experimentadas (ou vetores fsicos correspondentes no crebro) e os movimentos se forma pouco a pouco. 
No faltar quem suponha que no h entre os dois fatos qualquer relao natural, ou, em outras palavras, 
que, originalmente, quaisquer tendncias (e vetores correspondentes no crebro) possam ser seguidos por 
quaisquer movimentos imaginveis dos membros. Se isso fsse verdade, as seqncias corretas teriam de ser 
aprendidas inteiramente e sem exceo. Outra presuno  a de que a direo dos movimentos reais tem a 
tendncia de confundir-se com a das tendncias motoras experimentadas (os vetores corticais 
correspondentes) e que, na tenra infncia, ste acrdo ainda no se realizou, meramente porque a maturao 
do sistema nervoso ainda no se completou. Certas observaes favorecem mais a segunda que a primeira 
hiptese. Mesmo assim, presentemente, somos incapazes de dizer como a direo de um vetor cortical 
acarretaria a direo correspondente a um movimento real, como seria o caso, se a segunda presuno fsse 
correta. 
Evidentemente, encontrar a soluo exata dste problema constitui uma das mais importantes tarefas da teoria 
do campo. Entrementes, deve-se salientar que, mesmo se os movimentos corretos tivessem de ser aprendidos, 
essa aprendizagem ocorreria sob a influncia de determinados vetores corticais. Entre todos os movimentos 
que podem ocorrer em uma situao, os que tm certa direo deveriam ser destacados pelo fato de que sua 
ocorrncia est de acrdo com a direo do vetor prevalecente. Por essa razo, smente tais movimentos 
particulares poderiam reduzir a tenso que, na ocasio, existisse no crebro. Era de esperar que ste fato 
tivesse considervel influncia sbre o processo de aprendizagem. Repitamos, contudo, que ainda no 
estamos 
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convencidos de que  a mera aprendizagem que estabelece as relae entre as situaes, vetores e movimentos. Neste 
ponto, como em muito outros, parece ser o destino natural da Psicologia da Gestalt tornar-s a Biologia da Gestalt. 
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